Grande vencedor do prêmio Concha de Ouro de Melhor Filme no Festival de San Sebastián, na Espanha, e exibido na Mostra de São Paulo e no Festival do Rio de 2019, Pacificado é uma obra interessante, com muito valor técnico, mas eventuais problemas narrativos e, até mesmo, morais.

O longa conta com direção do americano Paxton Winters. Radicado no Brasil há oito anos, o cineasta optou por ambientar sua história na comunidade em que vive: o Morro dos Prazeres. O fato de morar no local, no entanto, não evita uma das maiores questões envolvendo a produção, que é retratar um olhar estrangeiro da favela. 

Morando há anos no morro, o cineasta talvez tenha um bom conhecimento da área e de sua população, mas ele não consegue necessariamente transmitir isso para seu filme. O que vemos em cena é o tradicional “favela movie”, com a comunidade sendo retratada quase sempre de forma estilizada e esteticamente agradável. 

Mas pior do que a exploração estética do espaço, com direitos a tomadas aéreas que buscam mostrar a dimensão do local, é o desvio ético presente no roteiro escrito por Paxton Winters. Para um filme passado em uma comunidade, Pacificado comete o erro quase mortal de colocar todos (sim, TODOS) os seus personagens (protagonistas, coadjuvantes e figurantes) envolvidos no mundo do crime ou das drogas. Com isso, se rende ao clássico clichê de que todo morador do morro é criminoso. Alguém pode argumentar que a trama envolve um ex-líder do tráfico que volta para a favela, então seria natural que as pessoas à sua volta estivessem ligadas à cena do crime. Mas isso não justifica o fato de que não há uma pessoa na comunidade que não seja criminosa, isso contando as várias crianças vistas em cena. Assim, o filme que pretendia oferecer um novo olhar sobre a vida no morro, acaba oferecendo o mesmo olhar preconceituoso, bipolar e radical de sempre. 

Às vésperas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, com a maioria dos morros sob a falsa ilusão da pacificação, Jaca (Bukassa Kabengele) retorna ao Morro dos Prazeres após um período preso. Ex-líder do tráfico local, ele quer seguir sua vida normal, sem irritar o novo comandante (José Loreto), mas isso não vai ser tão fácil quanto imaginava, afinal várias pessoas da comunidade ainda o veem como uma figura de respeito. Jaca também tem que lidar com a filha Tati (Cassia Gil) e a ex-esposa, hoje dependente de drogas (Débora Nascimento).

Nascido na Bélgica, mas naturalizado brasileiro, Kabengele cria um Jaca ameaçador, mas que também cativa o carinho do espectador. Com apenas 14 anos, Gil também é um dos destaques em cena, não deixando ser engolida por atores mais experientes que ela. Muito pelo contrário, por vários momentos, é Tati a personagem mais interessante em cena, e boa parte da responsabilidade é da atriz. Nascimento tampouco decepciona. Ela cria uma mulher forte, mas ao mesmo tempo frágil, que não consegue vencer a luta contra a dependência, mas que parece determinada a proteger sua família. O ponto fraco no elenco acaba sendo Loreto, no papel de um traficante caricato e pouco desenvolvido. 

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A complexidade dos personagens centrais, principalmente Jaca e Tati, salvam a experiência de Pacificado. Não absolve o longa de seu problemas, mas de certo modo o torna mais humano. Tivesse uma visão menos simplista e mais abrangente, poderia ser uma obra bem mais interessante.

O diretor chegou a dizer em uma entrevista que buscou fugir de estereótipos para criar personagens reais. Então, ele até consegue criar tais personagens. O problema é que os estereótipos de favela estão todo ali. Para dar e vender.

Filme visto durante a cobertura do Festival do Rio 2019 

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