Cada um sabe a família que tem. Da porta pra fora, muitas camadas, muitas máscaras podem ser vestidas para corresponder às expectativas da sociedade. Mas da porta pra dentro, só quem vive sabe os desafios que é conviver com pessoas da família que, muitas vezes, são apenas nomes, sem nenhum tipo de convivência. E às vezes eventos incontroláveis acontecem, forçando uma convivência inesperada, que pode vir a se tornar muito agradável, até, desde que haja uma chance de acontecer. Esse é o momento em que acontece o longa ‘Pai de Primeira Viagem’, filme brasileiro exibido fora de competição no Festival do Rio esse ano e com previsão de estreia no circuito exibidor no ano que vem.

Tudo vai bem na vida de Nico (Kevin Vechiatto, o eterno Cebolinha de ‘Turma da Mônica’), um jovem adolescente que gasta seu tempo com jogos on-line, conversas pelo computador e sem sair do quarto nem abrir as janelas. Mas sua mãe, Leila (Leandra Leal, de ‘Os Enforcados’), obviamente, está preocupada com o estilo de vida do filho e, uma vez que está às vésperas de viajar com seu novo namorado, decide que não vai deixar o filho sozinho em casa: ao contrário, vai deixá-lo com seu ex-marido e pai do garoto, Márcio (Murilo Benício, de ‘Assalto à Brasileira’, que estreia dia 5 de novembro nos cinemas), um comediante fracassado e cancelado na mídia e nas redes por conta de uma piada etarista. Sem opção, Nico é obrigado a passar uns dias com o pai que mal conhece, sem saber que, aos poucos, descobrirá que os laços de família unem as pessoas mesmo sem elas perceberem.
‘Pai de Primeira Viagem’ joga luz sobre a ausência – o buraco que se constrói quando um pai decide não participar da vida do filho. E diante desse entrave, entram dois dilemas que valem refletir: primeiro, a sobrecarga que é gerada a partir dessa ausência, afinal, sem ter com quem compartilhar todo e qualquer detalhe, a mãe acaba assumindo todos os erros e acertos, negligenciando a própria vida até, quem sabe, dar um basta; e o segundo ponto é justamente esse “basta”, ou seja, até que ponto forçar um convívio, uma relação entre duas pessoas que não se conhecem é o caminho para construir uma paternidade ausente? Quer dizer, forçar o filho a conviver com um cara que mal conhece tão somente para finalmente atribuir responsabilidades ao ex-marido seria mesmo a solução?

O roteiro de Felipe Braga e Filipe Serra parte do primeiro ponto para construir um enredo que busca emocionar através da construção do relacionamento entre um jovem inseguro e um pai cancelado. Num panorama maior, o filme ainda questiona a dificuldade de se fazer humor em um mundo que não tolera mais piadas inadequadas às custas de outras pessoas. Mesmo entendendo toda a situação, é difícil para o espectador sentir empatia por esse pai que não só não se esforça, como também insiste em situações que claramente causam desconforto ao próprio filho. Leva muito tempo para esse personagem ter alguma mudança, e, até lá, fica difícil torcer.
Mesmo com uma história que parece datada nos anos 90, o elenco entrega um bom trabalho, transparecendo as angústias que cabem a cada um – Leandra Leal como uma mãe que chegou a seu limite; Kevin Vechiatto como um jovem sensível, frágil e sem experiência de mundo; Murilo Benício como um cara atropelado pelo seu tempo, chocante em sua caracterização. Um trabalho competente da diretora Mariana Youssef que se realiza através de uma relação que se constrói na estrada, entre duas gerações um tanto opostas.
Reflexivo e melancólico, ‘Pai de Primeira Viagem’ entrega atuações maiores que sua história.


