Crítica | ‘Peaky Blinders: O Homem Imortal’ tem seus problemas, mas é um presente para os fãs da série original

Crítica livre de spoilers.

Peaky Blinders se tornou um fenômeno imediato quando estreou em 2013. Ambientada nos corolários da I Guerra Mundial e no sentimento de desamparo que se apoderou da Europa nas primeiras décadas do século passado, a trama acompanhou Tommy Shelby (Cillian Murphy), líder de uma gangue de rua londrina, e suas incursões no submundo do crime. E, em meio a ótimas tramas que conquistaram o público e transformaram o projeto em um momento cultural que se estendeu por seis gloriosas temporadas. Agora, Tom Harper nos convida para retornar a esse explosivo universo com o aguardado longa-metragem Peaky Blinders: O Homem Imortal’, que chegou ao catálogo da Netflix nos últimos dias.

A trama se inicia em um dos momentos mais cruciais da II Guerra Mundial, em que a Alemanha nazista, tendo cercado a Inglaterra em novembro de 1940, planejava injetar notas falsificadas na economia britânica a fim de colapsar o inimigo e, com isso, vencer a batalha de uma vez por todas. Para tanto, um agente a serviço de Hitler, John Beckett (Tim Roth), resolve se encontrar com os chefes dos grupos criminosos que se escondem nas ruas de Londres para garantir que o plano seja concretizado – incluindo Duke Shelby (Barry Keoghan), filho de Tommy que, após o isolamento compulsório do pai, tomou posse dos Peaky Blinders e transformou o legado de seu progenitor em uma sucessão de decisões erradas e de uma falta completa de consciência moral.

Todavia, a visão quase misantropa de Duke serve como primeiro aviso para que Tommy saia de sua aposentadoria e volte para o barril de pólvora que se tornou a capital inglesa. Afinal, depois da morte do irmão, Arthur, o antigo líder da gangue londrina resolveu se enclausurar no interior do país, longe de tudo e de todos e lançando-se a um livro de memórias solene e melancólico sobre sua solidão e sobre como a culpa continua consumindo sua alma dia a dia. Com a visita da irmã mais nova, Ada (Sophie Rundle), parlamentar que representa o sul de Birmingham, ele percebe que os problemas escalonam rapidamente – e a chegada de Kaulo Chiriklo (Rebecca Ferguson), gêmea de sua antiga paixão e mãe de Duke, Zelda, lhe dá o empurrão faltante para que ele retome as rédeas de um testamento prestes a ruir em chamas.

Harper não é nenhum estranho a esse mundo, visto que ficou com a difícil tarefa de encabeçar a temporada de estreia da produção original, dando o tom de uma instigante história que perduraria mesmo quase meia década depois de seu encerramento. Logo, o diretor acerta em cheio ao retomar um atmosférico trabalho que, agora, se afasta dos corolários da Primeira Grande Guerra e adentra território ainda mais martirizado, no centro de um conflito que poderia ditar os rumos do planeta. Dessa maneira, em meio a planos contemplativos e a uma sobriedade que transmuta o projeto tanto em uma incursão expansionista de um lore impecável, quanto em uma investida solo com começo, meio e fim.

O filme demonstra uma paixão inescapável pela série, por vezes exagerando na dose e ultrapassando os limites de uma carta de amor. Afinal, em meio a vários núcleos que são explorados por pouco menos de duas horas, o roteirista Steven Knight tropeça em pontos-chave que se valem mais de um tributo memorialístico do que uma história nova para a complexa dinâmica de Tommy e de todos que o cercam – incluindo Duke, que integra, junto ao protagonista, um embate intergeracional com toques de melodrama novelesco. Entretanto, apesar de alguns diálogos fracos e repetitivos, Murphy, Keoghan e o restante do elenco mergulham de cabeça em gloriosas performances que nos arrebatam logo nos primeiros segundos.

O projeto funciona como um encontro entre épocas, que desfruta de um delicioso e sutil anacronismo estilístico que já é marca do universo de Tommy Shelby. Temos, por exemplo a pungente trilha sonora de Antony Genn e Martin Slattery que entra em conflito cronológico com pulsões irruptivas do trip-hop e do pop-punk em escolhas que vão desde Nick Cave e Massive Attack; as reverberações de um passado não muito distante em ecos fantasmagóricos no presente, por sua vez, se destinam não apenas ao forte protagonismo sobrenatural e místico, mas a um esquadrinhamento existencialista do que significa estar vivo – e de que forma isso culmina em uma conclusão apoteótica e, ao mesmo tempo, agridoce.

Por mais que não consiga se desvencilhar de equívocos óbvios e se apoie demais na estrutura da série original, Peaky Blinders: O Homem Imortal’ consegue reunir os melhores elementos de uma das grandes produções televisivas das últimas décadas para construir uma prática narrativa de despedida e um presente para os fãs inveterados desse cosmos.

Lembrando que o filme está disponível na Netflix.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.