Crítica | Pearl: Prequel do terror ‘X’ traz Mia Goth em um impecável ensaio sobre um surto psicótico

Filme assistido durante o Festival de Toronto 2022

A frustração de uma vida reduzida ao ostracismo do anonimato se transforma em um contemplativo banho de sangue pelas mãos de Ti West em seu terror X: A Marca da Morre. Com ares de Sexta-feira 13, sob uma fotografia solar e uma hipersexualização de seus personagens, o terror conceitual é um frescor dentro do gênero, que emana a estética oitentista em um longa que, muito mais do que assustar, se preocupa em nos tragar para a sanguinolência de seus atos. Uma sucessão de assassinatos motivados pela infelicidade de uma isolada senhora que vive às custas de sonhos jamais realizados, o original é uma observação sobre o ser humano em seu estado mais primitivo possível – longe do convívio social e distante da sanidade lógica que governa a humanidade.

Pearl: Uma História de Origem ‘X’ chega aqui como uma história de origem não necessária, mas inegavelmente espetacular. Explicando quem foi a maldita vilã que nos revirou o estômago com mortes tão gráficas, a prequel de ‘X: A Marca da Morte‘ não é aquele clássico terror de jumpscares, mas é definitivamente um impecável ensaio sobre um surto psicótico. A realidade de Pearl (Mia Goth) poderia ser de enlouquecer qualquer um. Com seu esposo no fronte de batalha, ela dedica seus dias de volta à casa de seus pais, onde deve cuidar do seu pai – que segue em estado vegetativo -, enquanto é constantemente humilhada e maltratada por sua mãe. Entre os afazeres da fazenda e os cuidados paliativos que lhe tomam a energia, ela sonha com a vida de uma vedete nos palcos e nos cinemas. Sempre entre a mais pura e alucinante fantasia e uma dura realidade jamais desejada, ela tenta traçar seus caminhos em direção ao sucesso, fama e beleza plástica. O que não lhe disseram é que em uma terra árida, os sonhos nascidos do campo não tendem a florescer.

E sob uma estética bem technicolor, que remonta o formato dos filmes dos anos 50 e 60, West entrega outro brilhante terror que vai muito mais além do combo de sustos que normalmente nos aguarda em um terror slasher. Pearl é de fato uma espiral caótica de uma jovem à deriva de sua própria existência, que perece em uma vida medíocre onde sua identidade e personalidade são abafadas e sucumbidas pelas pressões de uma matriarca agressiva, insensível e indiferente. Mas independente do contexto familiar que nos trouxe Pearl, é inegável que a vilania já habitava nela, como West faz questão de mostrar em sua tortuosa forma de sacrificar animais indefesos. E essa construção é fundamental para tornar a idosa Pearl de ‘X‘ em uma criatura cruel e monstruosa aos olhos dos personagens e, obviamente, da audiência.

Conectando ambos os filmes de forma natural e quase imperceptível, Pearl é um derivado que caminha por suas próprias pernas e em diversos momentos nada se assemelha a ‘X‘. Com uma abordagem levemente metalinguística e um desenvolvimento narrativo diferente, o longa concentra-se na jornada autodestrutiva de uma jovem que enlouquece diante de sua realidade e da impossibilidade de seus sonhos. Trazendo uma performance poderosa de Mia Goth, o longa mostra uma vez mais a versatilidade da atriz em navegar em três personagens distintas em uma mesma franquia: Maxine – atriz de filmes adultos; a idosa Pearl em seu estado moribundo; e a jovem Pearl – uma garota entre a inocência e a insanidade histérica que a leva em uma epifania de assassinatos.

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Caprichando em seu segundo ato com uma sanguinolência de encher os olhos dos mais famintos pelos slasher, Pearl ainda abre espaço para um toque de humor e brinca com as oscilações emocionais de sua protagonista, transformando-na em uma pequena mistura entre o horror e um sarcasmo de um humor ácido e cortante. Violento, mas nada assustador, o mais novo filme de Ti West é uma espécie de jornada do vilão. E embora não acrescente nada genuinamente novo à X: A Marca da Morte, Pearl é o tipo de horror conceitual que é tão meticulosamente bem feito, que merece ser desfrutado até mesmo como uma experiência única sobre uma jovem frente à frente com a pior versão de si mesma.

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