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Crítica | Pedaço de Mim – Drama Francês Enfrenta os Silêncios da Maternidade Atípica


Estreia da cineasta francesa Anne-Sophie Bailly, Pedaço de Mim (Mon Inséparable) teve sua primeira exibição na mostra Horizontes do Festival de Veneza no ano passado e chega nesta quinta, dia 3 de julho, aos cinemas brasileiros. A vibrante e realista Laura Calamy, uma das grandes atrizes francesas da geração atual – revelada ao mundo na série Dix Pour Cent (2015–2020) – entrega aqui mais uma performance envolvente, ainda que já vista em registros anteriores como Contratempos (2021) e Uma Mulher do Mundo (2021).

Laure Calamy volta ao papel da mãe solteira que se desdobra entre trabalho, tentativas de vida amorosa e os cuidados permanentes com um filho adulto que, apesar de exercer alguma autonomia, vive com uma síndrome que compromete sua percepção, julgamento e segurança no mundo. A sequência inicial do filme na piscina revela a cumplicidade e codependência entre Mona (Laure Calamy) e Joël (Charles Peccia-Galletto). Ali, o cordão invisível entre os dois ainda parece inquebrável — mas o anúncio inesperado de que Joël será pai obriga mãe e filho a se reconfigurarem.



Joël trabalha, tem uma namorada (também portadora de deficiência intelectual), e deseja assumir seu novo papel paterno com alegria e otimismo. Sua falta de discernimento diante de certas armadilhas do mundo, entretanto, o torna vulnerável, e Mona, como mãe, deseja apenas protegê-lo. É nessa tentativa de proteção — que vai se tornando sufocante — que Pedaço de Mim desenha seu dilema principal. Ao querer garantir que o filho não sofra, Mona também apaga suas próprias vontades, desejos e até sua individualidade, numa busca impossível por uma maternidade perfeita e onipresente.

O filme conta essa trajetória sob uma lente inteiramente maternal. A perspectiva é da mãe que precisa desapegar, mesmo sem saber como — e é nesse gesto que Bailly constrói algo que tem valor: não o drama do filho com deficiência, mas o olhar da mulher que, ao cuidar tanto, esqueceu de si. Ainda assim, o roteiro acaba tratando a parentalidade de Joël como mais um problema a ser administrado por Mona, o que tira certa profundidade dos personagens com deficiência, que permanecem orbitando ao redor do protagonismo emocional dela.

Subtramas como o romance incipiente com Frank (Geert Van Rampelberg) e o passado com o pai ausente de Joël, supostamente exilado na Antártida, surgem como tentativas de reequilibrar a narrativa, mas soam um tanto dispersas e sem o peso necessário. O filme se esquiva de julgamentos morais fáceis, mas também evita se aprofundar nas decisões reais que envolvem a autonomia de adultos com deficiência, especialmente no contexto legal francês, onde a escolha de ter um filho cabe exclusivamente ao casal envolvido.

Com sua ambientação discreta e design de produção pouco marcante — um contraste com o visual mais elaborado de ContratemposPedaço de Mim se sustenta pela delicadeza com que retrata o amor de Mona por Joël, mesmo quando este amor beira o esgotamento emocional. A atuação de Laure Calamy, embora um tanto repetitiva em relação a papéis anteriores, ainda carrega uma verdade emocional tocante.

O filme pode não oferecer grandes reviravoltas e cenas memoráveis, mas propõe uma reflexão valiosa sobre os limites do cuidado e a necessidade de libertar — a si e ao outro — mesmo sob o peso da insegurança. Seu tom melancólico lembra comédias românticas delicadas como Simples Como Amar (1999) e Adam (2009), mas do ponto de vista materno, e não do indivíduo apaixonado. E, ainda que Pedaço de Mim não se aprofunde tanto nesse lado afetivo, a presença dessa abordagem materna já é por si uma contribuição relevante em narrativas sobre vínculos especiais e experiências de amor fora do padrão.

Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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