Crítica | Privadas de Suas Vidas – Excelente TERROR usa Escatologia para Falar de Assuntos Sérios [Festival do Rio]

Num mundo em que o excesso de informações é um dos grandes desafios da sociedade contemporânea, como conseguir chamar a atenção das pessoas para falar de assuntos sérios? Felizmente a galera criativa do cinema de gênero consegue pensar em alternativas bem inteligentes para conversar sobre pautas importantes, especialmente para e com o público jovem. Este é o pano de fundo para o surpreendente ‘Privadas de Suas Vidas’, filme de terror brasileiro que teve sua estreia nacional no Festival de Brasília esse ano, onde ganhou os prêmios de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, e que será exibido hoje no Festival de Cinema do Rio.

Malu (Martha Nowill) é mãe de gêmeos e se desdobra em mil para dar conta da criação de seus filhos ao mesmo tempo em que gerencia sua própria empresa de cerimonial de festas. Um dia, com seus filhos numa festa, um acidente terrível acontece, que muda sua vida para sempre. Anos se passam, o trauma na família permanece, mas hoje Malu toca sua empresa apesar de se sentir constantemente constipada e seu relacionamento com sua filhe, Gênesis (Benjamin Damini) estar cada vez mais complicado por conta da transição de gênero delu. No meio disso tudo, eventos estranhos começam a acontecer no prédio em que moram, justo agora que Malu fora contratada para cuidar do chá de revelação de uma importante influencer e vizinha sua (Chandelly Braz).

‘Privadas de Suas Vidas’ abraça o gênero do terror gore toscão como se sua vida dependesse disso, e essa é a coisa mais legal de projetos assim. É tudo tão leve e divertido que dá pra ver, é palpável, o elenco se divertindo em cena com a tosqueria que tem que interpretar.

Pode parecer bobagem, mas cinema de gênero se leva muito a sério, e, particularmente, ‘Privadas de Suas Vidas’ é um filme de terror genial que faz uso da escatologia e da analogia (o cocô) para falar de pautas de gênero de maneira bem clara e divertida. Em outras palavras: dialoga com os anseios de seu público através do formato que mais lhe agrada.

Dá um gosto especial (com o perdão do trocadilho) saber que tanto Martha Nowill quanto Olivia Torres receberam prêmios por suas atuações neste filme. Cada uma delas, a seu modo, entrega atuações icônicas que fica difícil qualquer júri ignorar. Martha tem todo um trabalho corporal para construir o enfezamento de Malu, crescendo e crescendo até o ato final, voltando às raízes teatrais para tornar visível tal transformação; já Olivia entrega doidera à Katka, uma personagem beeeem caricata típica dos filmes de terror mas que aqui se apropria dessa caricatura para transformar a personagem em algo memorável em sua carreira.

Tudo isso sem mencionar a direção de arte, a cenografia, o figurino e a caracterização que tiveram que dar asas à imaginação para construir os cenários desse condomínio que vão desde os momentos escatológicos quanto de sangue escorrendo ou da festinha do chá de revelação. A sincronicidade e a dedicação desses departamentos entregaram a ambientação necessária para o espectador entrar no absurdo de ‘Privadas de Suas Vidas’ sem se desprender tanto da sua realidade, para, assim, ao final do filme, rolar um momento de reflexão.

E pois é, ‘Privadas de Suas Vidas’ é tão bom que, ao final, é possível até chorar. Sim, um filme de terror que ao mesmo tempo provoca nojinho, risadas e ainda por cima emociona, em cumpre cada um desses requisitos com um roteiro e uma direção muito dedicada e pensada pela brilhante dupla Gustavo Vinagre e Gurcius Gewder.

‘Privadas de Suas Vidas’ é ótimo em muitos aspectos, e até mesmo quando os créditos sobem há referências ao gênero. É o terror que se ama e se aceita apesar das críticas. Ainda bem.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.