Atenção: spoilers à frente.
A LAIKA ascendeu ao merecido status de um dos maiores estúdios não só de animação, mas do cenário cinematográfico contemporâneo, em meio a uma série de motivos. O primeiro longa-metragem do estúdio foi uma adaptação de ‘Coraline e o Mundo Secreto’, baseada numa história assinada por Neil Gaiman e que trouxe nomes como Teri Hatcher e Dakota Fanning às telonas, eternizando uma poderosa e arrepiante jornada fantástica que a sagrou como uma das melhores produções da década. O incomparável e contínuo sucesso, que ajudou a revitalizar o stop-motion dentro do escopo animado, deu origem a outras gemas da sétima arte – incluindo ‘ParaNorman’, ‘Kubo e as Cordas Mágicas’ e ‘O Link Perdido’.
Sete anos depois de ter nos entregado seu último projeto, a LAIKA está de volta este ano com uma ambiciosa releitura do aclamado romance ‘O Bosque Selvagem’, assinado por Colin Meloy e ilustrado por Carson Ellis. Escalando o prestigiado diretor Travis Knight para comandar essa empreitada, um veterano dentro do estúdio cujo nível artístico já é bastante conhecido pelos cinéfilos, o resultado é uma gloriosa e profunda exploração do luto e da família que transforma o longa-metragem não apenas em uma das melhores investidas de 2026, mas uma das mais fabulosas da década (e podendo garantir a primeira estatueta do Oscar para o estúdio).

A trama acompanha Prue McKeel (Peyton Elizabeth Lee), uma jovem adolescente que vive em uma peculiar cidade no Oregon cercada por uma floresta interminável e que deu origem a diversas lendas. Alertada pelos pais para não se aventurar pelas densas árvores que cercam a cidade e a não sair de casa com o irmão mais novo, o infante Mac, Prue se vê arrastada para um mundo mágico quando o bebê é sequestrado por uma horda de corvos e levado para o bosque. Acompanhado de Curtis Mehlberg, um excêntrico colega de sala apaixonado por jogos de RPG, a garota se vê no centro de uma perigosa conspiração que envolve um acordo de sangue e uma iminente batalha entre o bem e o mal.
A verdade é que a floresta é palco para um conflito contínuo e sangrento que tem como centro a perigosa Alexandra (Carey Mulligan). Outrora esposa do Governador local, Alexandra é uma mulher acompanhada pela morte que perdeu o filho em um trágico acidente, pouco depois tornando-se viúva, e que recorreu à magia das trevas para tentar trazer o menino de volta – eventualmente rendendo-se a uma sede incontrolável de poder que a compeliu a reunir milhares de asseclas dispostos a segui-la sem pensar duas vezes e em busca de um controle intangível e mortal. E, para alcançar seu objetivo, ela precisa cometer um ato hediondo de sacrifício: Mac.

Knight, que trabalhou como animador em ‘Coraline’ e dirigiu ‘ParaNorman’ e ‘Kubo’ para a LAIKA, sempre teve a capacidade de se apropriar de conhecidos tropos do gênero para construir suas histórias – e, como podemos perceber por sua mais nova incursão cinematográfica, ele retornar às raízes e transforma convencionalismos de incontáveis histórias de fantasia em uma emocionante e memorável aventura que nos envolve do começo ao fim e que diluiu as surpreendentes duas horas e meia em um clássico instantâneo das animações em stop-motion.
Novamente, o cineasta escolhe uma narrativa guiada por um jovem e improvável protagonista arremessado para um universo desconhecido e que precisa dessa figura para transformá-la de uma vez por todas. Coraline Jones, Norman Babcock e Kubo agora são acompanhados por Pruc McKell no hall da fama do estúdio, imortalizando a garota como uma das personagens mais complexas e apaixonantes desse panteão. E, auxiliando-o nessa jornada, o roteirista Chris Butler promove um resgate da clássica Jornada do Herói, de Joseph Campbell, fazendo jus ao cosmos que Meloy e Ellis firmaram juntos e dosando drama, suspense e comédia em uma fantasia sombria que acerta em todos os pontos que precisa.

O primor visual é, sem sombra de dúvida, o elemento de maior destaque da animação: sabemos que a LAIKA é uma referência nas produções em stop-motion, mas, aqui, Knight e seu competente time artístico superam todas as expectativas com impressionantes sequências aéreas e um nível de detalhe bélico que nos arrebata em todos os momentos – incluindo na grande batalha final que nos relembra, com nostalgia e alegria, épicos como ‘As Crônicas de Nárnia’ e ‘O Senhor dos Anéis’. Mais do que isso, as hábeis mãos do realizador garantem, com respaldo da antêmica trilha sonora de Dario Marianelli e a expansiva e contemplativa fotografia de Caleb Deschanel, que a experiência fílmica seja pungente e catártica em sua completude.
‘O Bosque Selvagem’ desponta como a melhor animação do ano e mais uma obra-prima de um dos estúdios mais respeitados do cenário atual da sétima arte. Não só isso, o filme demonstra que mesmo histórias bastante conhecidas e familiares ainda têm a capacidade de nos encantar quando os nomes certos unem forças e criam a mais pura magia cinematográfica.
Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais em 29 de outubro.


