Crítica | Rambo: Até o Fim – Quinto filme da franquia ou… um genérico de Stallone!

Crítica | Rambo: Até o Fim – Quinto filme da franquia ou… um genérico de Stallone!

Nota:


Busca Implacável no México

Tudo ia bem na vida do protagonista, agora com base montada num rancho perto da fronteira com o México. Até que sua sobrinha decide tentar aproximação novamente com o progenitor, para isso indo até o citado país vizinho dos EUA. Uma vez lá, a menina termina sequestrada e vendida como escrava sexual, obviamente despertando a fúria sanguinária por justiça, de seu velho guardião.

Por esta premissa não há nada que nos remeta à franquia Rambo. Pelo contrário, a sinopse soa mais como uma reedição do primeiro Busca Implacável (Taken, 2008), ou alguma de suas inúmeras imitações. E esse é o principal e mais incômodo inconveniente de Rambo: Até o Fim – seu roteiro!

A ideia de Sylvester Stallone aqui era dar um fim digno a um de seus dois personagens mais icônicos. Ele já havia feito isso com Rocky no sexto filme de 2006, e mesmo assim retornou para os derivados Creed (2015 e 2018), saindo inclusive com uma indicação ao Oscar pelo primeiro. Com Rambo ele também já havia tido seu canto do cisne, se formos analisar, com o quarto longa de 2008. Aquele era o final digno para o guerrilheiro que ajudou a (re)definir o conceito do “exército de um homem só” dos filmes de ação machões da década de 1980. Sua tão sonhada volta para casa funcionou como o epílogo perfeito para a franquia.

Durante anos, Stallone buscava o roteiro ideal para continuar as aventuras do personagem, chegando até mesmo a circular um boato de que um possível novo filme envolveria uma trama sobrenatural, com Rambo enfrentando ameaças saídas do universo de fantasia, como monstros e criaturas. Seria bizarro, mas diferente. O extremo oposto do que se mostra o resultado deste Rambo: Até o Fim, um filme genérico até a medula, que caso não utilizasse o título muito conhecido, passaria tranquilamente por qualquer outro filme de ação de Sylvester Stallone. Ajudando a nos afastar por completo da concepção de que este não é o que nossa memória afetiva reconhece, o personagem chega descaracterizado, sem os cabelos compridos e a icônica faixa na cabeça.

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De Rambo aqui temos… bem, Stallone. Num personagem duro, atormentado e que sabe matar como nós sabemos respirar. Bem, Stallone em qualquer filme. O ator é o único elo atual com a franquia, sem qualquer outro elemento que nos remeta ao passado. E sem sua tradicional personalização e fazendo uso de uma trama urbana batida, realmente não sobra nenhuma conexão nostálgica que nos remeta ao universo que aprendemos a amar (à força) na década de 1980.

Falando agora das coisas boas, o primeiro ato se empenha em humanizar o personagem como nunca antes tentado. Esse é um grande diferencial. Sua relação com a sobrinha adotiva Gabrielle (Yvette Monreal – muito boa em cena) e a amiga Maria (a indicada ao Oscar Adriana Barraza) é honesta o suficiente para nos fazer importar com os desdobramentos trágicos. Uma cena em especial se mostra tocante: quando Rambo é forçado a desfazer a família feliz que possui no rancho em nome do senso de vingança. O trecho emociona mais do que outros planejados porque mostra o ruir de um castelo de cartas – que a felicidade de fato ficou para trás, sem possibilidade de recomeço.

No auge de seus 73 anos, Stallone (que escreveu a história e assina o roteiro) precisava contornar a barreira da idade e levar seu traumatizado veterano do Vietnã septuagenário para longe de uma zona de guerra. Assim, a solução pensada foi um ambiente mais minimalista – adaptando a trama para uma guerrilha urbana. Desta forma, criminosos de tráfico humano são os sacos de pancada ideais para Rambo. Quem assume a cadeira de direção no lugar do astro (que comandou o último filme) é Adrian Grunberg, diretor de segunda unidade de filmes como Chamas da Vingança (2004), Apocalypto (2006) e Jack Reacher: Sem Retorno (2016), que estreou na direção em 2012 com Plano de Fuga, veículo para Mel Gibson. Aqui ele entrega um trabalho sólido.

Ao contrário da trilogia dos anos 1980 (82, 85 e 88) – filmes de ação megalômanos que fizeram grande barulho nas bilheterias, em especial o segundo (o filme que fez de Stallone um astro) – os dois últimos Rambo apostam na crueza de sua visceralidade, em cenas violentíssimas, garantindo uma censura alta e restringindo seu público para os verdadeiros fãs. Desta forma temos novamente um show de mortes, desmembramentos e cabeças explodindo para ninguém botar defeito. E pensar que em 1986 o personagem ganhou seu próprio desenho animado e linha de bonecos mirados às crianças.

Rambo: Até o Fim traz o comprometimento e bom desempenho de todos os envolvidos. Stallone comanda o show, dando tudo de si – seja no desempenho físico da ação ou na dramaticidade implícita das situações. Como dito, o calcanhar de Aquiles aqui é a simplicidade de sua narrativa. Os outros filmes também não eram primores de roteiro? Concordo. Mas qual o ponto de se fazer algo exatamente igual nos tempos de hoje, nos quais muitos dos comportamentos e pensamentos não são mais cabíveis, ao contrário de, digamos, modernizar e aprimorar Rambo para os novos tempos. E não me refiro à matança e sim à inteligência de um trama um pouco mais rebuscada. Verdadeiramente uma obra requentada que poderia e merecia ser muito mais. Ah, e a despedida do Last Blood no título original? Balela. Stallone já cogita o próximo.



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