A frase “O Rio de Janeiro não é para os fracos” nunca fez tanto sentido. Os índices de violência cresceram exponencialmente na última década, ao ponto do cidadão carioca se sentir em constante perigo a qualquer hora do dia, em qualquer lugar da cidade. Porém, o problema da violência – que é, sim, um problema – é muito mais antigo, vindo ainda da época do Brasil Colônia e do Brasil Império, quando a polícia era a lei, e, em vez de ter havido uma reforma quando o país se tornou república, o poder da polícia foi ampliado, passando a ser confundido como o poder do Estado. Mas a polícia não é o Estado.

Numa produção da GloboNews em parceria com a Globo Filmes e o Canal Brasil, o documentárioRelatos do Front’ conduz o espectador a refletir sobre os diversos ângulos da violência: os praticantes, os combatentes, a população, as vítimas, os sobreviventes. Para tal, Renato Martins, diretor do longa, buscou alternar entrevistas com especialistas no assunto, policiais em atividade, ex-policiais que mudaram de ramo, familiares de vítimas e até mesmo ex-bandidos. Tudo isso costurado com profundidade pelo roteiro dele, assinado conjuntamente com Gabriel Pardal e Sergio Barata, indo desde a origem do estado de violência brasileiro até culminar no desalento dos dias de hoje.

Dentre os entrevistados, o historiador Luiz Eduardo Soares ressalta que a polícia no Brasil teve início em 1808, com D. João VI e nossa sociedade escravocrata, e que a violência é fruto do fato de o Brasil ser filho da maior violência de todas: a escravidão, e que já no século XIX a sociedade branca tinha medo de sair nas ruas em determinados dias e horários porque eram os momentos em que os escravizados saíam as ruas, e a sociedade de então os temia.

Do outro lado da moeda, o Sargento Wendel do Nascimento, comandante do 9º Batalhão, comenta que somente em 2015 ele foi a 25 enterros de policiais, e que o carro da patrulha quando fica parado para fazer a segurança se torna um alvo fácil dos bandidos. Já um antigo investigador da polícia relata o quanto a adrenalina dos momentos de ocupação bombeava o sangue nas veias ao ponto de chegar um momento de ele se questionar o que estava fazendo, afinal, em suas próprias palavras, eles não são capitães do mato correndo atrás de gente fugida.

Só que o que vemos hoje é um crescimento constante não só da violência, mas do discurso de ódio e do combate aos criminosos, que comumente são fica localizado em áreas pobres e favelas. Pelo documentário, o espectador é convidado a observar a semelhança nas promessas de campanha dos candidatos à prefeitura do Rio dos últimos vinte anos, nas quais todos diziam que iam investir no combate à violência, invadir os morros, diminuir o tráfico de drogas, etc. Até chegarmos ao ponto da conhecida Intervenção Militar no Rio, em 2018, que custou 1 bilhão de reais aos cofres federais e teve pouco resultado.

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Se tanto dinheiro e tantos indivíduos já foram investidos no combate à violência, então, por que ela não diminui? É exatamente este o ponto que o documentário quer fazer refletir, afinal, a polícia bélica não está adiantando em nada, porém, violência gera votos, e é isso que importa para os políticos.

O longa de duas horas de duração é bem produzido e ousa em entrevistar até mesmo William “Professor”, fundador do Comando Vermelho, que hoje já está velho e com tornozeleira eletrônica em casa. Entretanto, apesar do assunto urgente e delicado, é preciso também questionar o que o próprio documentário lucra gerando esse material, que possivelmente será inscrito em festivais no mundo inteiro com potencial de ganhar prêmios, tal como a famosa reportagem da Rede Globo/RJ TV sobre a invasão do Complexo do Alemão, que levou o Emmy.

 

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