Ángel (Mario Casas) é um paramédico que trabalha numa ambulância atendendo a graves acidentes rodoviários. Um dia, a ambulância em que está sofre um acidente e Ángel fica paraplégico. Inconformado por se ver de repente preso a uma cadeira de rodas, o lado mais obscuro de Ángel começa a aflorar, e ele passa a projetar todas as suas frustrações na namorada, Vanessa (Déborah François). E, o que antes era um relacionamento aparentemente normal, aos poucos se transforma na grande obsessão do rapaz.

A ideia original de Carles Torras tem um argumento bastante plausível: e se o vilão desse thriller fosse um cadeirante? Em tempos em que tanto se debate a urgência da inclusão social e da representação e representatividade nas manifestações artísticas, é preciso pensar, inclusive, que essas representações na arte devem ser as mais variadas possíveis, e não se limitando a uma única narrativa. Quer dizer, quando da criação de um filme sobre um homem que se transforma em um psicopata e começa a assediar a namorada, por que esse homem não poderia ser alguém em uma cadeira de rodas?


A originalidade em construir um protagonista cuja limitação motora é o combustível do seu ódio é o grande mérito do roteiro de David Desola, Hèctor Hernandéz Vicens e Carles Torras. Mais que isso, o roteiro acompanha duas vertentes importantes na construção desse cenário: a evolução do psicopata (que dá sinais desde muito antes sobre sua forma de controlar o outro e de impor sua vontade, quase sempre iniciando suas práticas de tortura com animais e/ou objetos) e o cotidiano do sujeito cadeirante, os inúmeros desafios que ele encontra em seu cotidiano, os olhares condescendentes e a necessidade de se manter sempre positivo – como se, porque agora cadeirante, perdesse automaticamente o direito à raiva, à tristeza, a errar, etc.

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É claro que, seguindo por esse caminho, o roteiro por vezes esbarra no didatismo, mas, ainda assim, surpreende. E em muito tudo isso é possível porque os protagonistas Mario Casas e Déborah François dão um show de atuação, ocultando os sentimentos na hora certa e deixando-os explodir quando necessário. Mario Casas apresenta um personagem totalmente odiável desde a primeira cena, um bruto por quem não sentimos nenhuma empatia, desfazendo-se da fama de galã que vem colecionando ao longo de sua carreira.

Carles Torras também assume a direção de ‘Remédio Amargo’ e conduz bem a evolução do seu thriller desde o drama inicial até o ápice de sua história. Com uma trama que se passa quase inteiramente dentro de um apartamento, o diretor faz bom uso dos espaços e da circulação dos personagens em cena, como se eles de fato fizessem parte daquele cenário. Sobra ainda uma pitadinha de sarcasmo nos detalhes do universo de Ángel (olha só o nome desse psicopata, que ironia!), um homem tão viril e machinho que, de repente, se vê totalmente impotente em sua masculinidade e é forçado a lidar com isso. Não bastasse tudo isso, a trama ainda se passa na vidada de ano entre 2019 e 2020.

Apesar do título horroroso em português, ‘Remédio Amargo’ é um ótimo thriller que prende a atenção do espectador do início ao fim. Com uma história original, a produção espanhola se destaca com uma das melhores opções da semana na Netflix.

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