Crítica | Reservation Dogs – Taika Waititi estreia primeira série indígena da Disney+

Se tem um tema que anda bastante em alta é a importância e a necessidade da representação e da representatividade em todos os espaços, incluindo na criação artística. A maioria das empresas está de olho nisso, buscando formas de incluir a representação e a representatividade em suas produções – e a Disney é uma das produtoras que vem mais se dedicando a incluir estes elementos em suas histórias, como pode ser visto em seus últimos lançamentos. Nessa pegada, chegou silenciosamente à sua plataforma Star Plus a primeira série indígena da empresa do Mickey Mouse, intitulada ‘Reservation Dogs’, com uma classificação etária para maiores de 16 anos.

Bear Smallhill (D’Pharaoh Woon-A-Tai), Elora (Devery Jacobs), Cheese (Lane Factor) e Willie (Paulina Alexis) são quatro jovens adolescentes indígenas em uma cidade no interior de Oklahoma. Eles cometem pequenos furtos para, com a venda dos produtos, conseguir levantar dinheiro para poderem sair da cidade e se mudar para a Califórnia, pois acreditam que a cidade está muito ruim, especialmente para descendentes de indígenas. Tudo isso piora quando um grande amigo deles, Daniel (Dalton Cramer), morre, e este episódio acaba virando o estopim para que os jovens busquem sair daquele lugar. Após se configurarem como uma espécie de gangue local, intitulada ‘Reservation Dogs’, e o aparecimento de um grupo rival que irá disputar o local com eles, Bear começa a ter visões ancestrais com um guerreiro (Dallas Goldtooth), que chama a sua atenção para o fato de que mais importante que fugir e salvar a sua própria pele é ficar e proteger a sua comunidade.

Por encontrar o delicado e importante equilíbrio entre a inserção dos valores indígenas na temática da série e trazer ao mesmo tempo aspectos contemporâneos para o núcleo principal, ‘Reservation Dogs’ consegue atingir um ponto chave que as produções estão tentando encontrar, mas muitas não estão conseguindo: colocar os indígenas não só atuando, como também escrevendo a história – e não só inspirando-as. Esse é um mérito que o produtor Taika Waititi (‘Jojo Rabbit‘)pode levar, exatamente por bater o pé e fazer questão que a série tivesse representação e representatividade em todos os seus âmbitos.

O roteiro de Taika Waititi e Sterlin Harjo passeia entre elementos comuns à adolescência estadunidense – curtição de hip hop, a ansiedade por sair da casa dos pais, as provocações de grupinhos rivais, etc – com temas cruciais da cultura indígena norte-americana, como o suicídio, a falta de perspectiva dos jovens não brancos, a importância da comunidade e da transmissão da sabedoria ancestral para a sobrevivência coletiva indígena na cidade. Não bastasse tudo isso, ainda há espaço para a participação de dois indígenas gêmeos e anões, que roubam os holofotes toda vez que aparecem em cena pedalando suas bicicletas e disparando comentários certeiros sobre a garotada local.

Dividido em nove episódios de trinta minutos cada, ‘Reservation Dogs’ é uma série igualmente divertida e extremamente dramática, justamente por centrar sua história no universo juvenil. Ao mostrar a realidade dos adolescentes indígenas contemporâneos daquele país, a série coloca o povo indígena não no passado, mas sim no presente, e demonstra que as dificuldades e os sonhos desses jovens são iguais aos de qualquer jovem ocidental, porém, os conflitos com suas tradições e identidades são intensificados por causa de uma sociedade que não admite outras culturas. Por isso, ‘Reservation Dogs’ é uma das melhores produções do ano, apresentada por uma gracinha de elenco que faz o público rir e sentir com a mesma profundidade.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.