Crítica | Retablo – Belo drama pré-selecionado ao Oscar trata de intolerância e aceitação

Crítica | Retablo – Belo drama pré-selecionado ao Oscar trata de intolerância e aceitação

Nota:


Representante do Peru na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2020 e destaque na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Retablo é o trabalho de estreia do diretor e roteirista Alvaro Delgado Aparicio. Em seu primeiro longa, o cineasta entrega uma obra complexa, profunda e repleta de camadas, como os retábulos de seus protagonistas.

Escrita por Aparicio e Héctor Gálvez, a trama gira em torno de Segundo Paucar, um garoto de 14 anos que ajuda o pai, Noé Paucar, na construção de retábulos, que são caixas/altares artesanais que registram cenas religiosas e cenários familiares. O pai é um artesão conceituada no pequeno vilarejo e tenta passar os ensinamentos para o filho. O jovem, por sua vez, demonstra grande admiração pelo pai e sua obra. Mas tudo muda quando ele descobre que seu pai guarda um importante segredo. 

Retablo é uma obra sobre a relação entre pai e filho. Sobre a idealização de uma figura e sobre a quebra de uma imagem perfeita – seja a paterna ou a artesanal -, mas também é sobre aceitação e tolerância. A história se passa numa região afastada na área andina no Peru, um local afastado da civilização, em que os costumem parecem valer muito e a força a sociedade patriarcal ainda se faz presente no dia a dia, tanto no uso da violência para solucionar os “problemas” locais, quanto na visão da mulher como alguém à margem das principais decisões.

É difícil entrar em maiores detalhes sem prejudicar a experiência do espectador, mas é interessante a forma como a obra usa os tais retábulos como metáforas claras daquela bela, mas frágil sociedade. Em que as relações podem ser destruídas a qualquer momento diante de fatos novos. 

Embora não seja o foco principal da narrativa, é interessante como a religião é um elemento que se faz presente a todo momento em cena. Não só os retábulos possuem um caráter religioso, como o próprio pai conta com um nome bem característico: Noé. A escolha não é por acaso. Os retábulos de Noé são como arcas em que ele guarda a história da região e da população local. E ele também passa por uma tempestade, por mais que metafórica. O personagem é vivido por Amiel Cayo, que entrega uma performance dura, mas repleta de sutilezas. Pode parecer paradoxal, mas a verdade é que Noé é um sujeito que possui um grande segredo e isso o deixa travado perante a sociedade. Ainda assim, demonstra, a seu modo, um carinho pelo filho e um grande apreço pela profissão.

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O grande destaque no elenco, no entanto, é Junior Bejar, em seu primeiro trabalho como ator. O jovem interpreta Segundo de forma natural e repleta de complexidade. O espectador acompanha de perto sua jornada de sentimentos. Se alegra, se surpreende e se redime com ele.

Mesmo com o baixo orçamento, Retablo conseguiu apresentar uma obra simples, mas suntuosa. Possui belos cenários, figurinos e um design de produção que faz justiça aos artesãos retratados. Em determinado momento, a mãe de Segundo, vivida por Magaly Solier, diz ao filho que ele não deve ser mais um camponês da região, e sim seguir a carreira do pai. Assim, Alvaro Delgado Aparicio faz uma celebração à arte e ao artesanato em um filme que diz muito e que vai se comunicar de diversas formas com cada pessoa.



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