Em sua terceira participação no Festival Internacional de Cinema de Berlim, Karim Aïnouz abre Rosebush Pruning, seu segundo projeto internacional, com uma imagem que sintetiza sua assinatura estética: um mar de azul intenso, quase hipnótico, atravessado pelo granulado da película. As cores são saturadas, quentes, táteis. Há algo de febril na forma como filma — como já víamos em A Vida Invisível (2019) e Motel Destino (2024), e aqui essa pulsação ganha contornos ainda mais perturbadores.
Ambientação na Espanha, o filme já estabelece o tom de provocação e estranhamento por meio da narração do protagonista Ed (Callum Turner). Ele relembra o amigo que encontrou e confessa que, até então, o único pênis que havia visto na vida era o próprio. A abertura mistura ingenuidade, sexualidade e desconforto — sensações que nos acompanham e se intensificam até o desfecho.

Assinado por Efthimis Filippou, o roteiro carrega a marca do colaborador habitual de Yorgos Lanthimos, responsável por Dente Canino (2009) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017). Há uma atmosfera de absurdo controlado, um desconforto que se instala aos poucos, quase paulatinamente, até que percebemos que algo está profundamente errado. Inspirado também na obra de Marco Bellocchio, adota um absurdo mais próximo da tragicomédia do que da secura radical associada ao cinema grego, como Miss Violence (2013) e O Lagosta (2015).
Estamos diante de uma família rica que, após a morte da mãe (Pamela Anderson), herda uma fortuna incalculável e passa a viver sem qualquer necessidade de trabalhar. O narrador descreve a dinâmica tortuosa entre os irmãos — Robert (Lukas Gage), Ana (Riley Keough) e o idolatrado primogênito Jack (Jamie Bell). Este último revela gostos peculiares: uma obsessão pelo sangue que já se manifesta na primeira cena com a namorada Marta (Elle Fanning), estabelecendo o erotismo perturbador que atravessa todo o filme.

O sexo nunca é apenas sexo. Surge como metáfora de poder, perversão simbólica, mecanismo de dominação. Rosebush Pruning (“poda das roseiras”) não poupa nudez, closes em nádegas e membros. O erotismo aqui é desconfortável, muitas vezes degradante, insinuado em gestos, silêncios e vínculos familiares que flertam com o tabu. O que inicialmente soa gratuito revela-se parte de uma engrenagem maior de manipulação que conduz a um desfecho sórdido.
O patriarca cego (Tracy Letts) adiciona uma camada grotesca à narrativa. Ele exige descrições minuciosas da namorada do filho, fixando-se obsessivamente em detalhes físicos, enquanto aos poucos se revela o alcance de sua influência doentia sobre os filhos e sobre a falecida esposa. A morte dela — devorada por lobos — é monumentalizada por uma tumba vazia com um busto nu no centro da casa: um símbolo kitsch de luto transformado em espetáculo.
Visualmente, o filme é sedutor. O calor espanhol reforça uma sensação de deslocamento, especialmente para essa família anglo-saxônica enclausurada em seu luxo obsceno. A câmera de Aïnouz permanece próxima dos rostos, da pele, da respiração. Ver Elle Fanning quase sem maquiagem, com as sardas expostas, intensifica essa crueza tátil.

Mas há também o choque. O sangue é abundante. Lobos devorando animais antecipam a violência que, mais tarde, alcança o corpo humano. A composição é bela, quase hipnótica — e é justamente nessa beleza que reside sua ambiguidade moral. Há um fascínio evidente na encenação da decadência.
Ao optar por uma estilização constante, Aïnouz dilui o desconforto que poderia ser devastador. Rosebush Pruning flerta com a crítica à ostentação e ao capitalismo afetivo do novo século, mas não atinge a radicalidade desconcertante dos trabalhos gregos associados a Filippou. O suspense sustenta a curiosidade, porém a estilização constante dilui o impacto devastador que poderia emergir do absurdo. O resultado é uma comédia sanguinária elegante e provocativa — visualmente magnética, por vezes mordaz —, mas sem a erupção catártica de Festa de Família (1995), de Thomas Vinterberg, ou o cinismo explosivo de A Prova de Morte (2007), de Tarantino.



