Crítica | Scream: Resurrection é uma das piores produções do ano

Crítica | Scream: Resurrection é uma das piores produções do ano


Nota:


Em 2015, a MTV embarcava em um ambicioso projeto: imortalizar o inegável legado da franquia Pânico nas telinhas – trazendo até mesmo o nome de Wes Craven na cadeira de produtor executivo. Considerando o extenso impacto que causou na cultura pop e, mais precisamente, no já saturado gênero de terror, a série de filmes originais iniciada na década de 1990 renovou as exaustivas narrativas de monstro e explorava ao máximo a metalinguagem, praticamente construindo um filme dentro de outro filme. Não é à toa que grande parte do público ficou animado quando a saga retornou aos cinemas em 2011 com o medíocre Pânico 4’ e, logo depois, alcançando uma nova audiência com Scream.

Agora, em pleno 2019 – um ano recorde para os reboots e remakes da indústria hollywoodiana -, a VH1 comprou os direitos intelectuais do universo e nos entregava o último suspiro do icônico Ghostface. Entretanto, o resultado foi bem aquém do esperado e até mesmo transformou as duas temporadas anteriores em obras-primas do baixo orçamento. De fato, Scream: Resurrection, insurgindo como um reboot da própria série, falha em todos os aspectos e nem ao menos consegue reaver a nostalgia das iterações originais, preferindo aglutinar uma gama de frases prontas e reviravoltas datadas ao invés de trilhar seu próprio caminho.

Como é de praxe, os telespectadores já se deparam com o clássico prólogo em uma reinvenção da clássica sequência de Drew Barrymore no primeiro longa-metragem. Aqui, Paris Jackson faz uma breve aparição em uma performance esquecível e inexpressiva que prepara terreno para a trama principal, que gira em torno de Deion (RJ Cyler) e um conturbado passado que volta para assombrá-lo oito anos depois. Afinal, ele observou impotente seu irmão ser supostamente assassinado pelo Homem-Gancho e, às vésperas de conseguir uma bolsa para a faculdade, se depara com uma misteriosa figura reacendendo a culpa que o vem consumindo há tanto tempo.


Aproveite para assistir:


Bom, ao menos é o que o show se propõe a fazer – mas nem mesmo as boas intenções conseguem salvá-lo de um completo fracasso. Em outras palavras, se a produção original já se erguia em uma constante e infeliz artificialidade, Resurrection consegue ir além disso e se levar a sério em praticamente todos os momentos. Porém, como fica claro no episódio de abertura, nenhum nome do elenco ou da equipe técnica parece estar preparado para o último adeus da franquia: a inexistente química de fato não é ajudada pelos rasos e formulaicos roteiros que se estendem ao longo de seis extenuantes episódios; cada um dos blocos, que por pouco consegue seguir a mentalidade de um serial killer, é sinóptico demais para envolver qualquer um, funcionando como uma antologia às avessas sem qualquer prospecto de realmente nos contar uma história.

Deion é acompanhado por uma espécie de “Clube dos Cinco”, como as explanações nos indicam de forma nada sutil, que se reúne em uma forçosa e inexplicável detenção. A partir daí, é natural que algo surja para conectar cada uma das personas e torná-las alvos do assassino – mas não é o que acontece: conforme nos aproximamos do segundo episódio, que já desenrola algumas das principais mortes, percebemos que não explicação plausível para o que estamos assistindo; a história ganha força por suas falhas, beirando o ridículo e até mesmo uma ofensiva crença de que os fãs são fáceis demais para comprar o que se vende.

Enquanto o passado do protagonista é o que realmente está em voga, todos os outros personagens se restringem a estereótipos noventistas que, de fato, não possuem mais lugar na esfera contemporânea do entretenimento. Temos Beth (Giorgia Whigham), a introvertida e rebelde gótica apaixonada por filmes de terror; Liv (Jessica Sula), a final girl que tenta emular ao máximo as graças de Sidney Prescott (Neve Campbell); Amir (CJ Wallace), o nerd tímido que se apaixona pela pessoa mais inusitada do grupo; Kym (Keke Palmer), a ativista desbocada e passiva-agressiva que, na verdade, é bem mais rasa do que aparenta; e o melhor amigo gay Manny (Giullian Yao Gioiello) que, ainda que fuja dos vencidos arquétipos mencionados, só serve como tapa-buraco e fiel escudeiro de sua melhor amiga heterossexual.

Apenas com essa breve descrição, é quase automática percebemos o padrão escolhido pelo serial killer – mas nem mesmo suas investidas homicidas nos levam a um desejado estado de catarse cênica. As mortais sequências movem-se em uma angustiante linearidade, aliadas a fracas atuações e uma construção dialógica sem pé nem cabeça. Se a franquia Pânico ganhou notoriedade por sua refrescante originalidade, foi pelo inteligente jogo psicótico delineado por seu antagonista e, principalmente, pelas interessantes reviravoltas e falsas pistas que entregava ao longo de sua jornada; a série, entretanto, nem ao menos se dá ao luxo de pensar em algo desse tipo.

Brett Matthews substitui o trio original no desenvolvimento dos novos capítulos e nos dá a impressão de querer terminar tudo o mais rápido possível. Nem mesmo nomes veteranos da indústria televisiva saem de sua zona de conforto, canalizando seus esforços em elementos fragmentários e novelescos que, mais uma vez, não contribuem para que compreendamos o escopo geral da obra; o que temos aqui é uma fusão de estéticas caricatas e previsíveis que transformam os episódios em revoltantes rendições de pura pretensão imagética.

Scream: Resurrection é, com falta de outro vocábulo, repugnante por todos os motivos errados. Em uma produção em que não há química, interesse ou cautela por parte de cada um dos integrantes, era melhor que a série tivesse se contentado com o imemorável especial de Halloween lançado três anos atrás. Porque, se houve alguma coisa que a terceira temporada conseguiu fazer, foi deixar claro que Ghostface nunca deveria ter saído do túmulo


COMENTÁRIOS