Conhecida por seu faro para histórias fora do convencional, a produtora A24 mais uma vez entrega uma obra que desafia os limites do drama psicológico com ‘Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria‘ (If I Had Legs I’d Kick You), que merecidamente ganhou o Urso de Prata de Melhor Performance para Rose Byrne.
Em um mercado saturado de fórmulas, a A24 mantém sua tradição de investir em narrativas ousadas, viscerais e… humanas. Rose Byrne entrega uma atuação simplesmente brilhante nesse filme que causa diversas sensações enquanto você o assiste, e o desespero é uma delas.
Byrne já se provou uma atriz brilhante, transitando com maestria entre o humor ácido de ‘Damages‘ e a leveza de comédias como ‘Vizinhos‘, mas aqui ela mergulha fundo no caos interno de uma mãe à beira de um ataque de nervos. Sua performance é ao mesmo tempo frágil e explosiva, carregando a narrativa nas costas com uma entrega que raramente se vê com tamanha autenticidade. A atriz consegue transpor todo o desespero da personagem de maneira angustiante, nos levando para uma jornada tenebrosamente sufocante.

A trama acomapanha Linda (Rose Byrne), uma mãe que enfrenta uma crise de vida após a doença de sua filha, a ausência do marido e o desmoronamento de sua casa, forçando-a a viver num motel e a lidar com isolamento e desespero para resolver seus problemas.
A protagonista é deixada sozinha, sem apoio emocional ou familiar, enquanto tenta sobreviver a uma rotina que sufoca. A sensação de abandono é palpável, e o roteiro não faz concessões ao conforto: não há alívio, não há válvula de escape. A câmera, muitas vezes colada ao rosto de Byrne, amplifica o sentimento de claustrofobia e mergulha o espectador diretamente em sua ansiedade crescente.
O elenco ainda tem atuações inspiradas de Conan O’Brien e A$AP Rocky.
O grande mérito do roteiro é não se deixar cair na monotonia da dor. Entre acessos de raiva, crises de choro e tentativas frustradas de manter a sanidade, surgem momentos de humor inesperado, quase como soluços de humanidade em meio ao desespero. Essa dose precisa de humor agridoce não alivia o peso da narrativa, mas a torna ainda mais real.
Com uma direção que não tem medo de incomodar, ‘Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria‘ é urgente, cruel e necessário. Ao abordar a saúde mental com tamanha franqueza, sem romantização, o filme grita por empatia em um mundo que ainda insiste em silenciar mães exaustas.
No fim, o que fica é o desconforto. Talvez essa seja a maior virtude do filme. Ele não quer agradar. Quer provocar. E consegue. Que sufoco!
