terça-feira, fevereiro 10, 2026

Crítica | Segundo Ato – Filme de Quentin Dupieux Aborrece Plateia na Abertura do Festival de Cannes 2024

Conhecido pelo seu formato divertido e inventivo de fazer filmes descompromissados e com um orçamento baixo, Quentin Dupieux apresentou seu 14° longa na abertura da 77ª edição do Festival de Cannes. Com uma linguagem metalinguística, Segundo Ato (Le Deuxième Acte, no original) não consegue manter o enredo de pé ao longo de 72 minutos. A grande anedota, afinal, é parecer um filme escrito e dirigido por inteligência artificial (IA). 

Com piadas em ritmo de metralhadora sobre os discursos politicamente incorretos, Segundo Ato é o nome de um restaurante de beira de estrada, onde desenrola-se boa parte dos verborrágicos diálogos e algumas das poucas cenas engraçadas. Conduzido por quatro estrelas do cinema francês Louis Garrel, Vincent Lindon, Léa Seydoux e Raphaël Quenard — protagonista do ótimo Yannick (2022) do mesmo diretor —, quem rouba a cena é o pouco conhecido Manuel Guillot, que dá vida ao figurante estressado emocionalmente Stephane. 

Em uma piscada de olho para a proibição de filmes da plataforma Netflix no Festival de Cannes, a projeção começa com a logo do N vermelho e, em seguida, somos martelados com diálogo de “diga a coisa certa”. Em outras palavras, os amigos David (Louis Garrel) e Will (Raphaël Quenard) disparam falas veladas de transfobia e capacitismo, mas lembram-se que estão diante de uma câmera e podem ser cancelados. 

Na primeira vez, a piada funciona como uma autocrítica à indústria de comunicação e as redes sociais, mas logo o timing cômico é substituído pela gastura da repetição das ideias, adicionando mais temas sensíveis. De um outro lado, Guillaume (Vincent Lindon) e Florence (Léa Seydoux) lidam com a crise existencial do primeiro. Cansado de fazer filmes de autor — como a obra em questão —, Guillaume destila farpas ao roteiro caricato e longe do “verdadeiro cinema”, para ele, o dos Estados Unidos, representado pela figura de Paul Thomas Anderson.  



Como em vicioso ciclo, tal como seu último longa Daaaaaalí! (2023) — ainda inédito no Brasil —, Quentin Dupieux nunca deixa claro onde começa e acaba a ficção dentro da ficção. Esta exploração do ilógico e surreal é o ponto forte da sua filmografia, vide O Interrogatório (2018) e Deerskin: A Jaqueta de Couro de Cervo (2019), porém esquecida nesta obra. Sempre curto e certeiro na paródia do próprio ato de fazer cinema, Dupieux até arranca algumas risadas em Segundo Ato, mas acompanhadas de bocejos por falta de um ponto de ancoragem para toda a repetição de discursos das redes sociais.

 

Em determinado momento, um dos personagens recita: “tem que saber separar o homem do artista”; em outro, a Florence anuncia os avanços de um colega de trabalho como abuso e todas as sequências seguem o mesmo modelo sobre polêmicas da indústria. Desse modo, o longa torna-se uma discussão modorrenta sobre a inutilidade da sétima arte, porém um borrão de sangue aparece na tela para acordar o público. Isto é, uma morte aleatória.

Discute-se tanto na indústria o perigo dos roteiristas — entre outros artistas — serem substituídos por inteligência artificial (IA) que é louvável ter uma obra que imagina as possibilidades de como seria a sua real existência. Se o objetivo de Quentin Dupieux era provar que um filme escrito e dirigido por IA é ruim, ele conseguiu colocar em tela o quanto é entediante ser entretido através de métricas, estatísticas e bytes. Seria uma provocação aos filmes formulaicos da Netflix de qualidade cada vez mais questionáveis? 

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.