Crítica | Shippados – Comédia nacional se perde na construção dos protagonistas

A comédia é um gênero de produção audiovisual que precisa ter cuidado ao ser manejada. Enquanto alguns acertam sem pestanejar desde o início, outros fracassam desde o princípio e existem aqueles em que o começo é excelente, mas se perdem no meio da situação.

Shippados, nova série original da plataforma Globoplay, que teve seu episódio piloto exibido na ‘Sessão Globoplay’, da TV aberta, conta a história de dois jovens azarados, de personalidades peculiares, em busca do amor através dos aplicativos. Rita (Tatá Werneck) possui alguns traumas na bagagem e relata os acontecimentos da sua vida em um vlog. Enzo (Eduardo Sterblitch) divide o apartamento com Valdir (Luis Lobianco), que namora Brita (Clarice Falcão), e os três vivem discutindo devido às diferenças. Após um encontro mal sucedido, eles (Rita e Enzo) se conhecem e vão descobrindo coisas em comum.

A produção tem os nomes Alexandre Machado (Os Normais – O Filme) e Fernanda Young (Os Normais) como criadores, o que já faz com que o público espere por algo, por menor que seja, que lembre Os Normais. Aqui o roteiro está modernizado, acompanhando as tecnologias, os discursos, as construções de identidades atuais, entre outras coisas que se aplicam a geração millenials, que é onde se encaixam os personagens dessa história.

A dramaturgia tem um começo intrigante, levando o espectador a querer descobrir mais sobre o universo que cerca os protagonistas e esse romance que está iniciando. A princípio, é uma descoberta gostosa e ao mesmo tempo divertida, um roteiro que permite ao público relaxar e aproveitar a trama no fim do dia. Alguns dos pontos levantados permitem a reflexão, enquanto outros estão ali somente para arrancar boas gargalhadas.

Contudo, a linearidade começa a se perder a partir da metade da série e a personagem de Tatá Werneck vai de interessante, cheia de camadas, para um ser humaninho chato, cuja personalidade parece ser desconstruída ao ponto de perder todo o carisma conquistado. E a construção de Enzo, infelizmente, caminha para a mesma situação. Ele, que chega a ser ainda mais peculiar e atrativo, perde parte do brilho e mostra alguns resquícios de babaquice enrustidas, especialmente quando conhecemos seus pais.

Enquanto o roteiro vai desandando na trama principal e na manutenção dos protagonistas, os secundários ganham os holofotes e são eles que conseguem manter os espectadores vidrados até o final. Apesar de poucas cenas e background, Júlia Rabello, que dá vida a Suzete, e Rafael Queiroga, que interpreta Hélio, são personagens tão divertidos, além, claro, das interpretações espetaculares, que é impossível se manter sério quando aparecem em tela. A dupla ganha os momentos em que aparecem e ofuscam até mesmo o protagonismo de Werneck e Sterblitch.

Falcão e Lobianco, apesar de estarem na pele de personagens não tão carismáticos, demonstram bastante confiança ao vivenciarem essas duas pessoas adeptas ao nudismo. Sem contar que a química dos dois é quase palpável de tão verdadeira. Por outro lado, quem vence na categoria pior personagem é Dolores (Yara de Novaes), além de não possuir simpatia alguma, a mãe de Rita tem um desenvolvimento caricato e só funciona nas cenas em que faz com Rabello.

Em quesitos técnicos, a produção tem uma trilha sonora espetacular, em especial quando a situação envolve o Enzo, e a direção de arte segue firme no quesito de excelência. A direção técnica está conforme o roteiro pede e segue fazendo bons alinhamentos nas colisões de acontecimentos que unem esses personagens. Um detalhe que mudaria: a abertura, pois a mesma chega a dar nos nervos assistir.

No geral, Shippados é uma comédia nacional que consegue cativar o telespectador, em full mode, até o episódio sete, mas se perde na construção dos protagonistas e desalinha totalmente aquilo que vinha sendo mostrado da personalidade de cada um, parecendo criar duas novas pessoas com resquícios das que o espectador se apaixonou no início da trama. Por outro lado, possui secundários de primeira classe.

Notícias

Amar também dói? 10 filmes que exploram os corações apaixonados

Um dos sentimentos mais complexos que existem é o...

Ir para a Home

Volte para a home do site.