Crítica | Small Axe – Antologia fílmica de Steve McQueen mergulha na vivência dos cidadãos negros da Inglaterra

Nos últimos anos, a indústria cinematográfica se comprometeu, como um todo, a buscar novas vozes narrativas, novas histórias e novas visões de histórias que vinham sendo contada por um único viés. Enquanto importante ferramenta de articulação, muitas pessoas da indústria perceberam que as produções poderiam se voltar mais para o entendimento das identidades e promover o debate social, então, recentemente os espectadores estão sendo contemplados por produções que, entre outros temas, debatem o racismo de forma aberta, como a minissérie vencedora do Globo de Ouro de Melhor Ator, ‘Small Axe’, disponível no Brasil na plataforma da Globoplay.

Dividida em cinco episódios independentes e baseados em experiências reais, ‘Small Axe’ propõe um mergulho na vivência e na sobrevivência dos cidadãos pretos residentes na Inglaterra entre os anos de 1969 e 1982. O roteiro de Steve McQueen e Rebecca Lenkiewicz constrói cada episódio baseando-se em elementos, lugares ou personagens que contribuíram, de alguma maneira, para que a comunidade preta se sentisse mais em casa, se reconectasse com suas culturas e/ou conquistasse mais espaço e direitos em território londrino.

O primeiro filme é, sem dúvida, o melhor e mais impactante de todos – talvez por isso tenha uma duração maior que os demais: duas horas. Nele conhecemos ‘Mangrove’, um restaurante no coração de Notting Hill, cujo dono, Anthony (Darren Braithwaite) é um homem preto. Isso – e os frequentadores do restaurante, todos pretos – é o suficiente para que policiais como Pulley (Sam Spruell) inventasse desculpas para invadir o lugar e causar todo tipo de transtorno. Até o dia em que Darcus (Malachi Kirby) e Altheia (Letitia Wright), membros do Pantera Negra, decidem organizar um protesto pelos direitos dos frequentadores do restaurante, que acaba desencadeando na prisão e julgamento de nove pessoas. Baseado em história real.

Talvez para dar uma quebrada na tensão, o segundo filme é mais light, centrado numa legítima festa da comunidade em uma casa no subúrbio inglês. A história é só essa mesma: pessoas que vão a uma festa e se divertem. É uma produção acima de tudo musical, boa pra deixar rolando na tv num sábado à noite. Já o terceiro filme, protagonizado por John Boyega no papel de Leroy, aborda a história de um rapaz preto que, contrariando a família, decide entrar para a polícia pois acredita que, estando dentro, poderá mudar o sistema e proteger sua comunidade. É o episódio que rendeu o Globo de Ouro.

Dirigido por Steve McQueen, a minissérie fílmica traz um panorama bem de dentro do que é ser um cidadão preto em um país que, naquele momento, enfrentava lutas pela independência dos países africanos. Não era (e ainda não é) fácil ser imigrante em um país, e ‘Small Axe’ constrói um retrato bem real dessa sensação, mesclando a parte boa com as tensões político-raciais. Talvez apenas a ordem com que as histórias são contadas pudesse ter sido diferente, deixando o melhor e mais longo filme para o fim. É uma ótima produção, porém, sem grande orçamento para um marketing maciço e sem a ajuda do boca a boca que convença as pessoas assistirem, pode acabar se tornando uma dessas pérolas que ninguém assiste, simplesmente porque não sabiam que existiam.

Notícias

Amar também dói? 10 filmes que exploram os corações apaixonados

Um dos sentimentos mais complexos que existem é o...

Ir para a Home

Volte para a home do site.

Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
Nos últimos anos, a indústria cinematográfica se comprometeu, como um todo, a buscar novas vozes narrativas, novas histórias e novas visões de histórias que vinham sendo contada por um único viés. Enquanto importante ferramenta de articulação, muitas pessoas da indústria perceberam que as produções...Crítica | Small Axe – Antologia fílmica de Steve McQueen mergulha na vivência dos cidadãos negros da Inglaterra