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Crítica | ‘Something Beautiful’ é o projeto mais AUDACIOSO e experimental de Miley Cyrus


Miley Cyrus não conquistou o nome e o legado que carrega nos dias de hoje por qualquer razão: despontando em uma das melhores séries do Disney Channel, ‘Hannah Montana’, e eternizando duas personas que conquistaram o público ao redor do mundo, a cantora e compositora logo deixou os arquétipos da Casa Mouse para trás ao começar a apostar em sua carreira solo – ascendendo a um estrelato invejável que nos rendeu sucessos atemporais como “See You Again”, “We Can’t Stop”, “Wrecking Ball”, “Flowers” e tantos outros. Agora, dois anos depois de ter dominado o planeta com o ótimo ‘Endless Summer Vacation’ (que lhe rendeu duas estatuetas do Grammy) e uma participação no aclamado ‘Cowboy Carter’, de Beyoncé’, ela retornou ao cenário fonográfico com o projeto mais ambicioso de sua discografia.

Something Beautiful, como é intitulado seu nono álbum de estúdio, vem sendo promovido através de inúmeras canções – incluindo a dupla marcada por um profundo poema que antecede a faixa-título, o melancólico lead single “End of the World” e a antêmica e catártica faixa “More To Lose” (que, como explorei em outro texto, configura-se como uma das maiores obras-primas não apenas do ano, mas da carreira da performer). Através de uma identidade amadurecida e despida de quaisquer amarras mainstream, Cyrus mostra que ainda tem muito a nos contar, pouco se importando com números quando o conceito de legado fala muito mais alto a esse ponto. Não é surpresa, pois, que ela também tenha anunciado um longa-metragem que acompanha o disco, com lançamento agendado para o Festival de Tribeca e chegando ao Brasil no dia 27 de junho.



O compilado de originais é uma experiência sinestésica que, volta e meia, escorrega em construções repetitivas e cansativas, mas que, ao mesmo tempo, reitera a apaixonante ousadia que a artista carrega consigo desde sempre. Se em sua investida anterior Cyrus mostrou que poderia acompanhar incursões populares – quebrando recordes de streamings e se apossando dos holofotes -, aqui ela preza pelo experimentalismo e por arranjos não convencionais. À medida que presta homenagens a ídolos que a influenciaram ao longo dos anos, ela explora um novo capítulo de sua apaixonante sonoridade e imagética, construindo uma ponte artística que liga cinema, música e Haute Couture sob uma perspectiva ávida e milimetricamente arquitetada.

É possível encarar o projeto em uma arquitetura tripartida: o ato de abertura comprime as faixas mencionadas alguns parágrafos acima, refletindo e reiterando a beleza que é buscada pelo eu-lírico adotado por Miley: navegando pela iminência do fim do mundo (e, com isso, o fim da beleza em si), complacente com a austeridade inescapável do tempo e lidando com a efemeridade da própria vida, ela se entrega de corpo e alma a narrativas pessoais e declamatórias. Há uma emblemática construção intimista que acompanha tais faixas, seja no encontro entre soul e electro-clash da faixa-título, seja no soft pop-rock explorado no lead single.

A segunda parte, ao menos na opinião deste que vos escreve, é o mais breve e o mais “diferenciado” de todos, por assim dizer: temos as teatrais e inesperadas construções do “Interlude I” e do “Interlude II”, ambos abraçando o mais recente single da era, “Easy Lover”. A sensual e despojada track se afasta da catarse dramática e inclina-se para uma mercadológica e envolvente mistura de R&B, funk e pop-rock que arranca da vocalista versos divertidos. Porém, nesse “caos controlado” de que se dispõe desde a faixa de abertura, ela permanece fiel às mensagens da constante procura da beleza e da exaltação de suas várias formas – por mais que, ao encontrá-la, tenha que lutar para mantê-la e celebrá-la (“qualquer coisa acontece embaixo dos lençóis, mas você não é um amante fácil”).

O ato de encerramento é o mais complexo – para o bem ou para o mal. Integrado pelas faixas de maior duração, Miley se reúne com um competente time de produtores e compositores que a auxiliam nessa conclusão, pecando a mão aqui e ali e manchando o que poderia se tornar uma impecável obra de arte. De um lado, ela une forças com Brittany Howard para a espetacular “Walk of Fame”, trazendo referências do disco e do dance em um épico de seis minutos que faz brincadeiras com a máxima “walk of shame” e que traz certos elementos melancólicos de volta para o refrão; de maneira similar, porém mais vibrante, ela posa ao lado de Naomi Campbell com “Every Girl You’ve Ever Loved”, trazendo o EDM e o synth-pop em uma atemporal libertação artística e pessoal.

Em contraste “Golden Burning Sun” estende-se por um período extenuante de regurgitações esquecíveis e uma falta de originalidade e ousadia que, de fato, não dialoga com a estrutura das outras canções; “Pretend You’re God” sofre de um mal parecido, mas elevado à enésima potência e configurando-se como a track mais fragilizada do álbum. “Reborn” pega as repetições supracitadas e as torna propositais e com um objetivo esclarecedor que faz sentido com as incursões do house – revitalizando os erros das iterações anteriores e nos preparando para um sólido finale com uma das músicas mais bem escritas de Cyrus, “Give Me Love”.

Something Beautiful pode não ser livre de alguns equívocos gritantes; todavia, esse corpo artístico é competente e interessante o bastante para nos manter envolvidos em uma jornada de autodescobrimento e de empoderamento que tenta responder a perguntas milenares feitas pela própria humanidade – e que coloca Miley Cyrus em total e completo controle de sua arte (e mostrando que ainda tem muito para nos contar).

Nota por faixa:

1. Prelude – 4,5/5
2. Something Beautiful – 4,5/5
3. End of the World – 4/5
4. More To Lose – 5/5
5. Interlude I – 4/5
6. Easy Lover – 4/5
7. Interlude II – 4/5
8. Golden Burning Sun – 2/5
9. Walk of Fame, feat. Brittany Howard – 5/5
10. Pretend You’re God – 1/5
11. Every Girl You’ve Ever Loved, feat. Naomi Campbell – 4/5
12. Reborn – 3,5/5
13. Give Me Love – 3,5/5

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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