Desde o lançamento do primeiro trailer, a minissérie The White Lotus, nova incursão original da HBO, prometia ser uma aventura e tanto. A narrativa, centrada em um resort de luxo no Havaí, acompanha o cotidiano de alguns hóspedes e membros do quadro de funcionários e, à medida que seus problemas se misturam, as tramas se engolfam em um tsunami de mentiras, ressentimentos e discussões que colocam toda a atmosfera paradisíaca e relaxante em xeque. É claro que, por um lado, a premissa da produção pode parecer bastante familiar e convencional, apostando no drama e mostrando o lado mais sombrio do próprio ser humano. Entretanto, são as construções ambíguas e o desenrolar bizarro de cada arco que a transforma em uma das melhores séries do ano.

Por trás dessa louca investida, jaz a mente sórdida do criador, roteirista e diretor Mike White, que já nos incita a curiosidade pelo próprio título. Afinal, o lótus é uma planta cujos frutos funcionavam como narcóticos; na mitologia grega, eles eram ingeridos pelos habitantes de uma longínqua ilha para dormir em uma profunda apatia pacífica, esquecendo-se do lar e daqueles que amavam – em uma análise metafórica, pessoas que passam o tempo se valendo de luxos e riquezas em vez de lidarem com os problemas da própria vida. É sobre essa ideia que os episódios são alicerçados: procurando refúgio da realidade, os visitantes do White Lotus se mostram, a princípio, iguais a qualquer outro: pessoas ricas e brancas que não sabem mais como gastar o dinheiro e que não querem lidar com a disfuncionalidade de suas famílias ou de seus casamentos, banhando-se em extravagâncias idílicas que, uma hora ou outra, irão acabar.

De um lado, temos Rachel (Alexandra Daddario), uma jovem que está celebrando a lua de mel ao lado do esposo Shane (Jake Lacy), um abastado corretor de imóveis. Rachel é uma jornalista um tanto quanto frustrada e se sente “apadrinhada” pelo marido, que não perde uma chance de repetir que ela não precisa de um emprego e que pode apenas “aproveitar a vida”; lutando para deixar sua marca no mundo, ela encara o relacionamento como uma via única, em que deve abaixar a cabeça para alguém que não tem a mínima consciência de mundo. Shane, por sua vez, porta-se como um “filhinho de mamãe” que não aceita não como resposta, transformando a experiência do casal em um inferno constante e desperdiçando um precioso tempo fazendo investidas contra o gerente, Armond (Murray Bartlett).



Em outro foco, temos o enredo centrado na família Mossbacher – os personagens mais anômalos e perturbados da minissérie, diga-se de passagem. A matriarca, Nicole (Connie Britton), é uma controversa mulher e CFO de uma importante empresa; seus condenáveis valores, frutos de um movimento social que traz como referências chamadas como #AllLivesMatter e o constante acobertamento de injustiças mundiais, entram em conflito com a filha mais velha, Olivia (Sydney Sweeney), e Paula (Brittany O’Grady), amiga de Olivia. Como se não bastasse, ela também lida com o filho antissocial (Fred Hechinger) e com o marido, Mark (Steve Zahn), cujos erros do passado insistem em vir à tona em um turbilhão ridículo de autopiedade.

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O aspecto mais vantajoso da produção é o fato de não se levar a sério: White, juntamente ao seu time criativo, não tem quaisquer intenções de arquitetar algo exclusivo ou original, e sim utilizar fórmulas constantes do cenário do entretenimento para criticá-las em um espectro ácido e divertido. Nenhum diálogo está fora de lugar e, mais do que isso, é notável como cada sequência caminha para um lugar diferente. Há certos momentos em que os personagens cruzam caminho, como a chocante interação entre Rachel e Nicole, ou o vergonhoso meltdown de Shane quando percebe que não é superior a ninguém dentro de um lugar em que todos se rendem à alienação e ao individualismo. Aliado a uma estética complexa e paradoxal – que cria um conflito entre uma tétrica trilha sonora e uma fotografia vibrante e panfletária -, o roteiro leva certo tempo para acertar no ritmo e caminha para um grandioso finale.

White também demonstra significativo apreço por tendência sociopatas, beirando a psicopatia. O primeiro episódio calca um tom de perigo iminente, apoiando-se em tensões que sabemos que irão escalar até explodir em surtos mentais e reviravoltas de tirar o fôlego – ainda que não sejam espetaculares. Nesse quesito, Jennifer Coolidge, entregando a melhor atuação de sua carreira, é a que mais se encaixa na proposta da série; Coolidge encarna a problemática Tanya, que acabou de perder a mãe e resolveu viajar para o Havaí para jogar suas cinzas no oceano, eventualmente se envolvendo com uma funcionária local chamada Belinda (Natasha Rothwell), dando-lhe esperanças sobre uma parceria que nunca se concretiza.



É possível dizer que a conclusão de The White Lotus é frustrante, por assim dizer, por não cumprir com as expectativas que vários espectadores tinham. Entretanto, mergulhando na simbologia que se cria, percebemos que a narrativa se desenvolve em um ciclo sem fim, que começa e termina do mesmo jeito: os personagens passam por expressivas mudanças que os fazem enxergar o mundo à volta de uma maneira diferente, mas não da maneira esperada. Apesar de todas as oportunidades que tiveram, eles retornam ainda mais egocêntricos e submissos do que aparentavam, em uma ode pessimista à conturbada essência humana e à rendição ao conformismo.

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