Crítica TIFF | História de um Casamento – A chance de Scarlett Johansson no Oscar 2020

Crítica TIFF | História de um Casamento – A chance de Scarlett Johansson no Oscar 2020

Nota:


Filme Assistido durante o Festival de Toronto 2019

Desavenças, desequilíbrio e uma inquietude gritante que resulta na clássica incompatibilidade de genes. A vida a dois talvez seja uma das coisas mais difíceis no que tange às relações humanas. Entre mudanças de humor e de comportamentos, existem duas percepções distintas da vida e um compilado de maneirismos, tradições, backgrounds familiares e até mesmo traumas. E o divórcio, fruto dessa explosiva colisão, se transforma em um doloroso processo de ruptura, gerando novas visões, defeitos, passados e traumas, em uma espiral em pleno declínio. Em Marriage Story, nova produção da Netflix, Scarlett Johansson e Adam Driver vivem as etapas desse desamor, quando seu inesperado casamento chega ao fim, dividindo bens, coisas e – acima de tudo – a atenção de um filho pequeno.

Percorrendo as veredas familiares de maneira confortável, Noah Baumbach é um cineasta capaz de alcançar os lugares mais escusos de lares e de famílias, trazendo relatos realmente identificáveis e francos. Deixando de fora todo o processo de se apaixonar, ele conta aqui uma narrativa relacional a partir do desamor, pincelando brevemente nos aspectos que fizeram de Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Drive) um casal feliz por muito tempo, apenas para capturar nossos corações, a fim de nos fazer sentir o penoso processo de separação, como se fôssemos aquela criança que testemunha tudo de perto, sendo também um fruto desse divórcio.

De maneira simbólica e realista, História de um Casamento percorre todo o processo de divórcio a partir da absorção e percepção de seus protagonistas, salientando de maneira palpável que há sempre um lado mais ferido nessa confusão. Expondo ainda as adversidades de se conciliar a vida a dois – em virtude de sonhos e ambições que parecem caminhar em direções opostas – o drama escrito e dirigido por Baumbach vai a fundo na temática relacional, colocando a audiência em uma posição desconfortável de tentar escolher um lado nessa jornada, mas penando nesse sentido, por compreender que relacionamentos são muito mais complexos e vão além do certo e errado.

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Com uma expressividade absurda, seus protagonistas ainda ditam o nível de dramaticidade da produção, além de serem as peças chave que garantem pitadas suaves de humor, conferindo um equilíbrio ideal com leveza e simplicidade. Essa estratégia narrativa ainda se apresenta como uma perspectiva apurada sobre a vida, com Baumbach nos mostrando que entre lágrimas, dor e perda, há sempre um sopro de um riso, que ainda que tenha se perdido em meio à circunstâncias tão delicadas, sempre encontra sua brecha para surgir. E nesse contexto, ScarJo e Driver cativam nossos olhares, hipnotizando-os com sua densidade e entrega aos personagens. Vivendo os dramas e dissabores de Nicole e Charlie, ambos se tornam a combinação perfeita nas telonas, com uma química que extrapola, invadindo a mente da audiência que atenta observa duas pessoas ideais se perderem de si mesmas.

Franco e apaixonante, o filme nos leva a picos emocionais inimagináveis. Sensível, ele ainda se transforma em um porta voz dos filhos do divórcio, além de relatar com precisão as mazelas de duas pessoas que decidiram separar suas vidas terminantemente. Ao mostrar os contrastes que a separação traz na vida, alterando a rotina e as dinâmicas relacionais, a produção nos faz compadecer de seus protagonistas, à medida que mostra o fim do sentimento de pertencimento de um dos seus pares, apresentando-o como aquele que, ainda que tenha um vínculo eterno com a família que um dia foi sua, se vê sendo emocionalmente desligado dela. Emocionante e profundo, História de um Casamento é o passaporte da Netflix para o Oscar, prometendo uma linda jornada que pode (e deve) render indicações a Johansson e Driver.



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