Crítica livre de spoilers.
A Pixar permanece como um dos maiores estúdios de animação de todos os tempos – e, antes de dar vida a clássicos instantâneos do gênero como ‘Monstros S.A.’, ‘Ratatouille’, ‘WALL-E’ e tantos outros, iniciou seu glorioso império com a franquia ‘Toy Story’. O primeiro longa-metragem, lançado em 1995, influenciou praticamente todas as produções que o sucederam em virtude não apenas da história original, que trouxe brinquedos à vida, mas aos adventos tecnológicos que promoveu na sétima arte. Não é surpresa que o sucesso incomparável do filme o tenha transformado em uma saga multimidiática e multibilionária que tem um lugar especial no coração dos fãs.
Sete anos depois da chegada do quarto filme às telonas, que inclusive conquistou o Oscar de Melhor Animação pela segunda vez seguida, o veterano Andrew Stanton nos convida para retornar a esse vibrante e apaixonante universo com o antecipado ‘Toy Story 5’, que estreia oficialmente no próximo dia 18 de junho nos cinemas nacionais (contando com sessões antecipadas a partir de amanhã, 17 de junho). E, ao investir esforços consideráveis para reiterar o inegável status de zeitgeist cultural de uma das franquias mais populares e ovacionadas da história, o cineasta e corroteirista acerta em cheio em uma jornada aventuresca e recheada de comédia, drama e uma contundente crítica à tecnologia predatória e até mesmo à perda da infância como a conhecemos.

Para aqueles que não se recordam, o capítulo anterior encerrou o arco de Woody (Tom Hanks), que passou o distintivo de xerife para a vaqueira Jessie (Joan Cusack) e transformou o patrulheiro espacial Buzz (Tim Allen) em seu delegado. Agora assumindo o posto de líder do quarto da jovem Bonnie (Scarlett Spears), Jessie percebe que as coisas estão mudando muito rápido quando a garota sofre para fazer amizades, visto que ela é a única que ainda brinca com brinquedos. Afinal, todas as outras crianças foram hipnotizadas pelas brilhantes telas dos aparelhos tecnológicos, esquecendo-se daqueles que sempre estiveram ao seu lado e colocando um ponto de interrogação no que isso significa para os brinquedos.
Acreditando estarem a salvo, as coisas viram de cabeça para baixo quando Bonnie ganha um tablet de presente dos pais: Lilypad (Greta Lee). Causando comoção significativa entre Jessie, Buzz e os outros, todos acreditam que serão doados ou abandonados pela garota – e a própria Lilypad se mostra disposta a garantir que ela faça amizades de uma maneira muito mais rápida do que eles conseguirão. Sentindo-se desafiada, Jessie decide provar que conhece Bonnie melhor do que ninguém e, unindo-se a seu fiel escudeiro, o cavalo de pelúcia Bala no Alvo, ela enfrenta traumas de um passado distante que vêm à tona à medida que ela transforma sua missão em um tour-de-force para se libertar de todos os medos que têm.

Enquanto vários fãs da franquia comentaram sobre o caráter dispendioso de ‘Toy Story 4’, Stanton fez questão de reconhecer a necessidade do filme para mudar o foco da nossa atenção para uma das personagens mais queridas da franquia. Apresentada em ‘Toy Story 2’, Jessie cruzou caminho com Woody em um momento sombrio, lidando com o fato de sua primeira dona, Emily, tê-la abandonado e encontrando outra família primeiro com Andy e, agora, com Bonnie. Determinada a mantê-los todos unidos, a vaqueira volta a enfrentar fantasmas que insistem em assombrá-la em uma tentativa desesperada de não passar por tudo aquilo de novo.
O diretor, que, como já mencionado, também fica responsável pelo roteiro ao lado de Kenna Harris, explora temas como abandona e trauma de maneira a singrar entre o universal e o particular, utilizando a complexa personalidade de Jessie como receptáculo para algo que é comum a todos, mesmo em camadas distintas. Não é surpresa que Stanton consiga navegar com tamanha destreza pelo drama e pela comédia em um encontro emocionante e pungente que nos faz refletir sobre o que significa ser amado e como estamos condicionados a uma efemeridade incontrolável e destrutiva.

É interessante ver como o pano de fundo da tecnologia serve como uma base, ainda que sólida, para algo mais profundo que se desenrola em breves 102 minutos de duração. À medida que somos introduzidos a personagens muito bem delineados, incluindo o Amigo Troninho (Conan O’Brien), Atlas (Craig Robinson) e Snappy (Shelby Rabara), as múltiplas tramas convergem para um ponto crítico na história de Jessie e de que forma ela enfrenta sentimentos que ressurgem como um turbilhão irrefreável, levando-a até mesmo a questionar sobre se o problema, de fato, é ela própria. Mas é claro que, considerando que o filme é destinado primeiramente para um público mais infantil, o “final feliz” seria certeiro em todos os aspectos.
‘Toy Story 5’ é um fabuloso retorno à forma e uma carta de amor a uma das sagas do cinema de maior respeito e impacto de todos os tempos, sabendo dosar as camadas mais intrincadas de seus personagens de maneira sagaz, respeitosa e finalmente dando o espaço que Jessie sempre mereceu em uma aventura que nos tira risadas, lágrimas e nos faz sair da sala do cinema querendo mais.



