Crítica | Trash: A Esperança Vem do Lixo

Crítica | Trash: A Esperança Vem do Lixo

Nota:


Capitães do Lixo

Vendido como “Quem Quer Ser um Milionário? versão brasileira”, Trash é o quarto filme exibido na programação do Festival do Rio 2014 a entrar em cartaz no grande circuito, depois de Garota Exemplar, O Homem Mais Procurado e o terror Annabelle. A obra é uma produção do Reino Unido, inteiramente passada no Rio de Janeiro. Na história, Raphael (Rickson Tevez) e Gardo (Eduardo Luis) são dois meninos pobres que trabalham num lixão. Quando encontram uma carteira contendo dinheiro e uma misteriosa chave, a maior aventura de suas vidas começa.

Os meninos se saem bem com um talento espontâneo e irreverente, no entanto, o filme conta ainda com alguns nomes de peso ajudando a projetar a obra. Selton Mello e Wagner Moura, os dois maiores ídolos do cinema nacional aparecem juntos dividindo os créditos pela primeira vez. Ou melhor, quase. Na verdade, os atores não dividem uma cena sequer, com a participação de Moura soando apenas como apoio moral para impulsionar o filme. Ele vive o personagem que desencadeia a trama e aparece somente em poucos flashbacks. Já Mello, vive o primeiro vilão de sua carreira, e brilha como um policial corrupto, cruel e frio.

CinePop 7

Os nomes chamativos internacionais são providos pelo veterano Martin Sheen, ótimo e se desdobrando no português na pele do missionário Padre Julliard, e Rooney Mara, um dos novos nomes mais proeminentes e talentosos da atualidade, na pele da professora voluntária Olivia. As presenças destes atores, que trazem peso ao projeto, serve para costurar a obra com boas cenas de interação de personagens. A comparação com o filme vencedor do Oscar de Danny Boyle é indevida, no entanto. Em Trash não existe urgência, ou melhor, ela é abafada por cenas mais descontraídas, nas quais os personagens mirins não sentem verdadeiramente o perigo e nos passam justamente isso.

Cenas de maior intensidade, como a tortura de Raphael dentro de um carro acelerado por ruas esburacadas, são diminuídas por outras, quando os meninos fogem debochando da polícia, que não lhes acerta um tiro mesmo estando a poucos metros, por exemplo. Ou quando derrotam o antagonista de Mello, em um momento verdadeiramente “Trapalhanesco”. Tais situações intensificam a atmosfera infantil e leve de Trash, apesar de existir um discurso político e social implícito (ou explícito).

CinePop 8

Trash deseja ser relevante, fervoroso e sério, ao mesmo tempo se comporta como uma aventura juvenil, parente próximo de Capitães da Areia, mas carioca do lixão. O visual é digno de prêmios. A equipe construiu o cenário limpo que serve como o lixão, tornando tudo seguro e higiênico para os atores. A direção de arte da favela (também um cenário) é outro atrativo. O maior problema é mesmo o roteiro com crise de identidade, do geralmente ótimo Richard Curtis (Simplesmente Amor e Questão de Tempo).

Aproveite para assistir:


A direção é do britânico Stephen Daldry, cineasta adepto do melodrama. Apesar do exagero dramático de seus filmes, e do forte teor açucarado, Daldry é um queridinho da Academia. Todos os filmes do cineasta receberam a aprovação do Oscar, vide Billy Elliot (2000), As Horas (2002), O Leitor (2008) e inclusive o horrendo Tão Forte e Tão Perto (2011). O fato aumenta o status de Trash no mercado internacional, e quem sabe servirá de campanha em época de premiações.



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