Crítica | ‘Um Match Surpresa’ é uma rom-com natalina fofa, mas igual a qualquer outra do gênero



A temporada de filmes de fim de ano já começou nas principais plataformas de streaming, mesmo dois meses para a celebração do Natal e do Ano Novo – e, depois do lançamento de ‘A Família Noel’, a Netflix já nos apresentou um segundo título que promete aquecer nossos corações: Um Match Surpresa.

A história é centrada em uma jovem chamada Natalie Bauer (Nina Dobrev), jornalista que usa sua fracassada vida amorosa para dar vida a artigos que encantam as pessoas ao redor do mundo e se relacionam com suas desventuras da maneira mais inesperada possível. Entretanto, Nat acredita que isso está prestes a mudar quando ela conhece o cara perfeito em um aplicativo de relacionamentos: além de ser lindo, ele é divertido, um bom ouvinte e está disposto a conhecer tudo sobre ela. Depois de passarem semanas conversando, Nat resolve viajar à cidade de seu pretendente para surpreendê-lo para as comemorações natalinas – e descobre que ele, na verdade, não é quem diz ser. Engolfada em um elaborado catfish, a protagonista cruza caminho com Josh (Jimmy O. Yang) e percebe que não tem qualquer sorte com assuntos do coração.

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Josh tenta se desculpar ao dizer que criou um perfil falso por não se sentir seguro consigo mesmo, mas não imaginava que a conversa com Nat evoluiria a laços tão fortes. Ao perceber que o verdadeiro crush dela, Tag (Darren Barnet) vive na mesma cidade, ele cria um acordo que pode beneficiar a ambos: caso Nat aceite fingir sua namorada até o feriado acabar, ele a ajudará a conquistar Tag em retribuição. É a partir daí que toda a trama principal se desenrola. E, no final das contas, a produção da gigante do streaming carrega todos os elementos que envolvem seus espectadores e usuários – isso é, um punhado de fórmulas e “reviravoltas” esquecíveis que só não mancham mais a estrutura da obra pelo divertimento que o elenco imprime.

O enredo não é e nem procura ser original: lidamos com um período do ano em que todas as tramas convergem para uma amálgama de comédias românticas ou aventuras fantásticas que celebram a união, o amor e tudo de melhor que o Natal pode nos trazer (a despeito de tantas tragédias que aconteceram nesses últimos dois anos). Saber como conduzir tamanho clichê é a chave para atualizar clássicos ou desconstruir engessamentos do gênero – e isso os roteiristas Danny Mackey e Rebecca Ewing definitivamente não conseguem fazer. Desde o primeiro ato à bruta conclusão, qualquer um que tenha o mínimo de experiência assistindo a iterações cinematográficas pode prever cada movimento de cada personagem em cada sequência.

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No geral, o longa-metragem funciona como uma fusão descompensada entre a antologia ‘Simplesmente Amor’ (que, por sua vez, já foi recontada como a minifranquia ‘Idas e Vindas do Amor’ e ‘Noite de Ano Novo’) e a comédia escrachada ‘Esposa de Mentirinha’, estrelada por Adam Sandler e Jennifer Aniston. Apesar de não se levar a sério e ter a ciência de que não irá causar um grande impacto, a narrativa nem ao menos busca se erguer em um começo, meio e fim críveis: Nat se torna a culpada de tudo o que aconteceu e nem ao menos é-lhe dado o benefício da dúvida pelo motivo que se entregou àquela mentira muito bem arquitetada; seu breve arco ao lado de Tag é esquecido por completo antes da conclusão, em prol de uni-la com Josh, que a conhece de verdade (em uma emulação divertida e reconfortante do supracitado filme de 2003); e algumas cenas beiram o pedantismo de tão exageradas que são.

Hernán Jiménez, à frente da direção, não tem muito com o que trabalhar e, por essa razão, constrói algo que seja compreensível sem muito cansaço mental – e, apesar de certas personas aparecerem como tapa-buracos, queremos descobrir como Nat irá navegar entre tantas mentiras e artimanhas. Eventualmente, é a pontual química entre ela e Josh que carrega, a tropeços, a obra até o fabulesco enlace do casal; sabemos o que vai acontecer; sabemos como vai acontecer; e, quando as corretas previsões se concretizam, é quase impossível não esboçar um sorriso pelo fato de tudo ter acabado bem – afinal, é isso o que desejamos para nós e para aqueles que amamos.

Um Match Surpresa é fofa, pela falta de um adjetivo melhor. Não há muito o que se analisar aqui, com exceção de que oportunidades foram perdidas em uma necessidade de agradar o máximo de pessoas possível – e, ainda que não precisemos de uma inflexão profunda, seria interessante ver um pouco mais de carisma, fluidez e ousadia.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.