Crítica | Um Monstro no Caminho – Terror/drama familiar elogiado estreia na HBO



Quem é o verdadeiro monstro?

No cinema independente norte-americano é onde se encontra a verdadeira fonte de ideias originais. Não é por menos que a maioria dos diretores consagrados começam assim, vindo de baixo, em produções sem muitos recursos, mas lotadas de ideias. É a fome de querer deixar sua marca. Outros diretores seguem por este caminho ao longo da carreira, sem se corromperem pelo cinema mainstream, cenário onde muitas vezes suas vozes são caladas – ou diminuídas.

É exatamente o caso com este Um Monstro no Caminho (The Monster no título original), filme independente que mistura de forma satisfatória um drama familiar estarrecedor, daqueles dignos de prêmios, com o cinema fantástico de monstros – o que garante o ânimo dos aficionados. O filme infelizmente não passou por nossas salas de cinema no Brasil e agora aporta diretamente nos canais da rede HBO.

Não por menos temos um especialista no gênero atrás das câmeras, o diretor Bryan Bertino. O sujeito estreou na direção com Os Estranhos (2008), suspense com Liv Tyler, que virou cult e gerou uma continuação tardia – programada para este ano, e que contará com o roteiro de Bertino, mas não a direção.

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Em Um Monstro no Caminho, temos um dos melhores desempenhos da carreira da jovem Zoe Kazan, neta do icônico e controverso cineasta Elia Kazan, e que ganhou os holofotes novamente nesta época de premiação com o elogiado Doentes de Amor. Bem, ainda não conferi a citada comédia dramática, mas posso garantir que Kazan defende uma performance e personagem únicos neste terror. Aqui ela vive Kathy, uma jovem mãe nada exemplar para a pequena Lizzy. Drogada, alcoólatra e uma antena para relacionamentos abusivos, esta protagonista muito disfuncional está a um passo de uma tragédia, ou que sua filha lhe seja tirada por algum órgão responsável.

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Para esta dinâmica desequilibrada funcionar era necessário uma atriz mirim que fizesse um bom jogo com Kazan, e é seguro afirmar que a produção a encontrou com Ella Ballentine – e que ótimo ano para atrizes mirins, entre este filme, Logan e Projeto Flórida. Aqui, a filha constantemente precisa ser a mãe e fazer papel do adulto responsável, já que sua progenitora na maioria das vezes está caída no banheiro, perto da privada, ou desacordada em qualquer lugar da casa. A relação abusiva é de dar nos nervos, e a veracidade das cenas, totalmente levadas de forma crível como num drama que busca prêmios, impressiona. Kazan é a protagonista, mas é também uma das personagens mais desagradáveis e odiosas do ano no cinema.

Bem, mas obviamente teremos uma guinada nesta trama, afinal este ainda é um filme de terror. Numa noite, na qual a mãe leva a filha para ficar com o pai, correndo o risco de não voltar mais para viver com ela, seu carro sai da estrada ao atropelar um lobo. Ferida, com o braço quebrado, a mãe consegue chamar ajuda pelo celular e as duas esperam socorro mecânico e de uma ambulância. Aos poucos mãe e filha começam a perceber que algo as espreita nesta estrada, cercada de mata dos dois lados. E sua revelação – que não irei estragar aqui – é algo, bem… monstruoso.

Com um roteiro digno de Tarantino em Um Drink no Inferno, Um Monstro no Caminho acerta ao mesclar de forma talentosa dois gêneros difíceis. E quem merece elogios aqui é justamente o roteirista e diretor Bertino. O jovem cineasta sabe que qualquer filme de terror funciona melhor quando cercando tudo são criados bons personagens, com desenvolvimento detalhado. Justamente por isso, o cineasta dedica a primeira metade do seu filme para explorar quem são essas duas pessoas, mãe e filha, e seu relacionamento pra lá de problemático. Sentimos pena da garota e raiva da mãe. A intensidade dramática é a pista que nos transforma em joguete nas mãos do talentoso artista, que antes de atear fogo, certifica-se de que a gasolina foi bem jogada.

Já na segunda metade, Bertino subverte tudo, jogando as personagens num cenário ainda pior do que seu cotidiano no dia a dia. Se as duas achavam que suas vidas eram ruins, espere para ver o que o diretor armou para elas. O novo desafio a ser superado traz a união das protagonistas, que agora precisam juntar forças, tendo apenas uma a outra para confiar. No segundo trecho, o diretor e o longa entregam exatamente o que você quer, adrenalina e tensão até não poder mais, e momentos viscerais – onde Bertino explora ao máximo o que seu orçamento pode oferecer, escondendo detalhes e mostrando o que pode. O resultado acerta nos dois âmbitos, cria um bom drama familiar impactante, e entrega um filme de monstro corajoso e criativo.

É claro também que aqui podem ser encontradas diversas analogias, o que torna o sabor ainda mais especial. O monstro é apenas um reflexo do real monstro, a personagem de Kazan. E toda esta história pode ser vista como o desafio de superação da pequena Lizzy. O desfecho dúbio narrado pela própria abre possibilidades para tais interpretações. Com atuações de primeira, bons efeitos práticos, uma narrativa ágil e uma mescla entre gêneros que poucos conseguem equilibrar, Um Monstro no Caminho é um dos melhores exemplares de terror do ano.

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