Você já pensou – ou mesmo tentou – enxergar a vida que leva por outras formas? Colocando no centro dos holofotes um peculiar experimento social, o longa-metragem francês Voz de Aluguel, dirigido pela cineasta francesa Fabienne Godet, usa a dramédia e um marcante fato inusitado para nos conduzir a reflexões instantâneas sobre a tecnologia, o mundo ansioso da comunicação e as formas de enxergarmos as coisas mais simples às quais nunca prestamos atenção como deveríamos.
Baptiste (Salif Cissé) é um exímio imitador, super habilidoso com a voz, que trabalha num call center e faz apresentações artísticas na outra parte do tempo. Certo dia, conhece Pierre (Denis Podalydès), um famoso escritor que vive recluso e que logo lhe faz uma proposta pra lá de inusitada: que Baptiste se passe por ele através das inúmeras ligações que recebe todos os dias. Assim, aos poucos – entre conversas e mais conversas – Baptiste e Pierre vão aprendendo um com o outro.

Selecionado para o Festival de Cinema Francês do Brasil 2025 – o antigo Varilux –, o filme confronta o espectador a indagações existenciais, sendo a principal delas: O que você faria se alguém lhe pedisse para se passar por essa pessoa? Com camadas se abrindo, ainda que não tão longe da superfície, vamos conhecendo os conflitos desses personagens pela perspectiva de um protagonista que inicia uma desconstrução sobre tudo que acredita e se viu amarrado pelas dores até ali.

A estrutura narrativa é bem simples e apresenta somente pitacos de contextos mais amplos, moldados numa construção positiva das consequências emocionais – algo frágil, mas que funciona, entretanto não confronta e se alonga. Há uma certa coragem de apresentar uma conjuntura de encontros artísticos mostrando como a felicidade pode vir desses ofícios, dentro do confronto entre criatividade e realidade. Essa questão lapida uma exaltação à vida, transmitindo mensagens positivas no campo das reconstruções.

Voz de Aluguel é um daqueles filmes que passam a sensação de que conseguiram exibir tudo que queriam dizer – nada além. Coeso e sem excessos, explora a liberdade e a responsabilidade pelos significados que a vida permite, além de jogar uma lupa sobre quando teremos o bastante para recomeçar.
