Crítica | “Whoopsie-daisy!”: Lana Del Rey está de volta com o cinemático e místico single “White Feather Hawk Tail Deer Hunter”

Lana Del Rey eternizou a imagem sad girl no cenário do entretenimento desde sua estreia oficial com Born To Die, um dos álbuns que redefiniram o pop ao colocá-lo dentro de um espectro mais melancólico, saudosista e recheado de uma imagética poderosa e muitas vezes controversa que, pouco a pouco, a transformou em uma das maiores compositoras da atualidade. Navegando entre um escrutínio público constante que “denunciava” uma suposta romantização do amor tóxico e uma exploração categórica do “sonho americano” como ideia falida e ultrapassada, Del Rey alcançou um ápice artístico com o aclamado Norman Fucking Rockwell!’, que abriu portas para um novo capítulo de sua discografia.

Desde então, a cantora e compositora se lançou a outras incursões que acompanharam esse incisivo amadurecimento, incluindo Blue BanistersChemtrails Over the Country Club e o irretocável ‘Did You Know That There’s a Tunnel Under Ocean Blvd.’, esquadrinhando neste o medo de um esquecimento que parece inescapável para aqueles que pertencem ao show business. E, em meio a promessas não concretizadas, um casamento que se tornou alvo de tabloides e adiamentos constantes, Del Rey finalmente confirmou uma nova era que vem sendo promovida desde o lançamento de “Henry, Come On” “Bluebird” no começo do ano passado.

Intitulado Stove, seu aguardado décimo álbum de estúdio tem lançamento agendado ainda para este ano e, com sorte, nenhum obstáculo surgirá para a estreia de um antecipado compilado de originais que vem quase três anos desde sua última incursão. E, para nos deixar ainda mais animados, ela nos presenteou recentemente com a excêntrica e mística faixa “White Feather Hawk Tail Deer Hunter”, uma explosão de gêneros que funciona como mais uma ótima entrada à carreira da artista.

No geral, é possível traçar um paralelo entre a inédita canção com outras obras-primas experimentais assinada por Del Rey, como “A&W”“Arcadia” – mas não no tocante à temática explorada ou à construção instrumental, e sim às ousadias a que a performer se lança ao lado de Jack AntonoffDrew Erickson. De certa maneira, o single explora, de maneira ácida e inebriante, a situação em que ela se encontra, singrando pelos opressivos holofotes que insistem em encontrar controvérsias em seu casamento com Jeremy Dufrene – porém, recusando-se a fazer o óbvio e deixando que as impecáveis metáforas falem por si próprias.

O título da track já nos prepara para essa narcótica aventura musical: ao utilizar a imagem do gavião-branco, cuja cauda remete à de um cervo, e ao confrontar uma estética urbana com a celebração da potência da paisagem natural, ela aposta numa simbologia bruxesca que remodela a clássica “Laura”, imortalizada por Ella Fitzgerald, em um encontro entre goth-countryjazzamericana. Os estilos musicais convergem para uma arquitetura sombria e teatral que não apenas traz elementos das icônicas trilhas sonoras dos primórdios da Walt Disney Studios, como ressignifica bordões atemporais do imaginário estadunidense (“whoopsie-daisy!”) em uma sedutora e instigante ambiguidade.

Como vemos através de quase quatro minutos, a predileção cinemática e sinestésica da artista está de volta com força descomunal – e as pungentes blasfêmias e a mágica narrativa de que se dispõe transformam “White Feather Hawk Tail Deer Hunter” em uma celebração seminal de tudo o que ela já nos entregou e de tudo o que ainda tem para nos entregar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.