Crítica | ‘Wuthering Heights’ é uma gloriosa entrada para a imaculada discografia de Charli XCX

Charli XCX vem trilhando um caminho de enorme sucesso desde que surgiu na indústria fonográfica, sendo um dos emblemas do movimento conhecido como PC Music. Aliando-se a nomes como A.G. Cook e SOPHIE, a artista deu início a uma revolução que acompanhou as contínuas investidas do cenário mainstream e que culminou em intersecções experimentais que incluem o hyperpop e o industrial pop. Recentemente, Charli encontrou sucesso ainda mais considerável com o lançamento de ‘BRAT’, que trouxe impacto significativo à cultura pop e rendeu a artista nada menos que três estatuetas do Grammy Awards – as primeiras da performer.

Três anos mais tarde, somos convidados para mais um ambicioso projeto que é inspirado no remake de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell, que já está em exibição nas salas de todo o planeta. Intitulado Wuthering Heights, o compilado de originais é composto por doze faixas inéditas e vem sendo promovido desde novembro do ano passado. Os três singles que precederam a estreia do disco – “House”, “Chains of Love” e “Wall of Sound” – esquadrinharam o tempestuoso e comoventes cosmos eternizado por Emily Brontë e deram o tom de uma releitura inesperada da icônica história de amor entre Catherine e Heathcliff em uma união entre passado e presente.

Logo de cara, Charli se reúne com John Cale para a já citada colaboração “House”, dando o tom cinemático e evocativo que acompanha essa etérea narrativa musical – e precedendo a igualmente provocante “Wall of Sound” ao fortificar a grandiosa e maximizada composição instrumental que entorpece cada uma das faixas. À medida que navegamos por essa exploração psicoafetiva do significado do amor e a maneira como escapar desse sentimento acolhedor e destrutivo é uma tarefa impossível. E, como a máxima diz, “se não pode vencê-los, junte-se a eles” – e é então que chegamos a “Dying of You”, uma celebração dos anos 2000 incorporado à conhecida identidade despojada da cantora, seja com cíclicos sintetizadores, seja com a hiperbólica constatação do amor como necessidade e sacrifício, ao mesmo tempo.

Se ‘BRAT’ nos trouxe Charli em meio a impetuosas e empoderadoras declarações sobre sua percepção de si mesma e do mundo ao longo de explosivas e vibrantes construções, Wuthering Heights vem como contraposição contundente ao envolvê-la em um escopo mais restrito, por assim dizer. A performer não abandona em momento algum a essência que a transformou em uma das maiores popstars da atualidade, mas utiliza um mandatório amadurecimento para construir as tracks que compõe essa densa obra, como é o caso da dissonante e fabulesca intangibilidade delineada em “Always Everywhere”, em que traz elementos robóticos e orquestrais dentro de uma atmosfera propositalmente opressiva, dando um duplo sentido ao título.

Um dos aspectos que mais nos chama a atenção é a forma como as canções são uniformizadas nos vários estilos de que se dispõe, mas não no tocante à estruturação dialógica, borrando as conhecidas divisões de uma peça sonora em expressivas distinções que vão desde a lírica até a duração. “Out of Myself”, por exemplo, trata o amor como libertação através de metáforas brutais e inesperadas, antecipando o efêmero e psicodélico interlúdio “Open Up”; já em “Seeing Things”, os violoncelos e violinos respaldam uma ambientação que une a elegância orquestral às distorções vocais que transmuta o sentimento em uma experiência universalizante, pautada numa melancólica esperança que é pincelada pelas várias camadas de vozes.

A genialidade do álbum está na própria contraditoriedade: de um lado, temos uma exímia coesão artística e estilística, cortesia do trabalho de Finn Keane na produção. Unindo forças a nomes como Lewis Pesavoc e Justin Raisen, Keane sabe com quais instrumentos deseja colocar em atividade, forjando peças que, à medida que se complementam em capacidade técnica, se afastam pela temática assinada por Charli e pelo restante dos compositores – e essa ideia é concretizada principalmente com “Altars”, uma das faixas mais bem escritas do álbum, em que o amor ultrarromântico se destitui das próprias máscaras e cede a uma dura realidade (talvez tarde demais).

O compilado não é livre de equívocos, por mínimos que sejam: aqui me refiro à colaboração “Eyes of the World” ao lado de Sky Ferreira, que se mantém tão fiel à robusta estética das outras músicas, que perece em meio a regurgitações cansativas do electro-synth e é ofuscada pela própria falta de originalidade. Todavia, Charli logo se recompõe com o nostálgico electro-rock que se apodera da apoteótica “My Reminder”, sem sombra de dúvidas uma das entradas mais gloriosas do projeto e que coloca a abstração intocável do amor em uma verdade pungente, mas fundamental; e com a espetacular “Funny Mouth”, que fecha com chave de ouro uma aventura sinestésica que quase beira a perfeição.

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Wuthering Heights é uma ótima e sólida entrada a uma das discografias mais imaculadas da música contemporânea, unindo literatura, cinema e música em uma experiência sensorial, emulativa e inebriante que apenas uma artista com o calibre de Charli XCX poderia nos entregar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.