Crítica | ‘Your Mother Your Mother Your Mother’: Suspense de ação com Mahershala Ali é MELHOR que qualquer ‘Blade’ [Festival do Rio]

Assisti a ‘Your Mother Your Mother Your Mother’ em sua première no Festival do Rio e saí da sessão genuinamente surpreso. Esperava um bom filme, principalmente pela presença de Mahershala Ali e pela direção de Bassam Tariq, mas não imaginava encontrar uma história tão envolvente, emocionante e repleta de sequências de ação espetaculares. São quase duas horas que passam voando, sem barriga e sem aquela sensação de que o filme está apenas enrolando para chegar ao confronto final.

É uma produção que começa como um drama familiar, vai ganhando contornos de suspense e, quando percebemos, já se transformou em um ótimo filme de ação.

Na trama, Ali interpreta Latif, um assassino profissional e muçulmano devoto que tenta conciliar sua vida perigosa com a fé e os cuidados com a família. Após a morte repentina da esposa, ele fica sozinho com três filhos, incluindo uma bebê que não consegue se alimentar com fórmulas convencionais. Sem encontrar leite materno e vendo a saúde da filha piorar, Latif percorre as ruas de Houston em uma busca desesperada que o obriga a reencontrar pessoas e ambientes de uma vida violenta que desejava abandonar.

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E preciso dizer o óbvio: este é o ‘Blade’ que Mahershala Ali e Bassam Tariq deveriam ter feito juntos. Não literalmente, claro, mas a comparação é inevitável. Temos Ali empunhando uma espada, atravessando a noite e enfrentando inimigos com uma presença ameaçadora.

A diferença é que, em vez de um caçador de vampiros procurando sangue, temos um pai desesperado procurando leite materno para alimentar a filha. Parece uma ideia absurda quando colocada dessa maneira, mas talvez seja justamente por isso que funciona tão bem. Tariq pega uma premissa improvável e a transforma em um thriller urgente, humano e completamente original.

‘Your Mother Your Mother Your Mother’: Suspense de ação com Mahershala Ali terá exibição no Festival do Rio; Confira as datas e horários!

A direção de Bassam Tariq é preciosa. Ele mistura luto, paternidade, fé, violência e crítica social sem deixar o filme pesado demais ou com cara de sermão. Existe uma preocupação muito bonita com os pequenos gestos, com os silêncios dentro de casa e com a forma como Latif tenta cuidar dos filhos enquanto sua vida desmorona. O diretor sabe quando respirar e, principalmente, sabe quando acelerar.

Mesmo quando a trama cresce e coloca fanatismo religioso, criminalidade e antigas alianças no caminho do protagonista, o objetivo continua simples e poderoso: aquele pai precisa alimentar sua filha.

As cenas de luta são, para mim, o grande ponto alto do filme. Elas são extremamente bem coreografadas e dirigidas, com golpes que parecem ter peso e consequências. A câmera não fica tremendo para esconder a ação, e a montagem não transforma cada confronto em uma confusão de cortes rápidos. É possível acompanhar os movimentos, entender de onde vem o perigo e sentir o impacto de cada ataque. Quando Latif pega a espada, Ali tem a postura, a elegância e a frieza de quem domina completamente aquele espaço. Fica ainda mais difícil aceitar que nunca vimos o ator como Blade.

Mas seria uma injustiça reduzir o trabalho de Mahershala Ali às cenas de ação. Sua atuação é poderosa justamente porque Latif vive em permanente contradição. Ele pode ser brutal com um inimigo e, segundos depois, demonstrar uma delicadeza comovente ao cuidar da filha.

Ali não transforma o sofrimento em espetáculo. A dor aparece no olhar, na voz baixa, no corpo cansado e na tentativa de manter alguma dignidade quando tudo parece perdido. Na minha opinião, é uma atuação que merece uma indicação ao Oscar. Se houver uma boa campanha, não deveria passar despercebida na temporada de premiações.

O restante do elenco também está ótimo. Adia, como a filha mais velha, funciona como um importante contraponto para Latif e carrega o próprio luto enquanto percebe que precisará assumir responsabilidades grandes demais para sua idade. John Cho surge com uma energia inquietante, equilibrando carisma e ameaça, enquanto Giancarlo Esposito entrega sua habitual gravidade sem simplesmente repetir os vilões que marcaram sua carreira. Tramell Tillman, Abubakr Ali, Tiffany Boone, Laith Nakli e Jahleel Kamara ajudam a construir um universo habitado por pessoas com crenças, interesses e feridas diferentes.

No fim, ‘Your Mother Your Mother Your Mother’ não parece um prêmio de consolação porque o ‘Blade’ de Ali e Tariq nunca aconteceu. Pelo contrário, o filme prova que talvez os dois precisassem justamente da liberdade de uma produção original para mostrar tudo o que poderiam criar juntos.

Temos espada, sangue e combates incríveis, mas também uma história sobre luto, fé e o medo de um pai que não sabe se conseguirá salvar a própria filha. Foi uma das melhores surpresas que tive no Festival do Rio, um filme de ação com personalidade, coração e algo verdadeiro para dizer. Depois de ver Ali atravessando inimigos com uma espada, continuo querendo assisti-lo como Blade, mas agora também quero muito acompanhar essa nova fase do ator como astro de ação.

O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

 

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