Já faz um tempo que a Walt Disney Studios vem investindo em adaptações em live-action de suas clássicas animações, incluindo histórias de origem de icônicas vilãs. Em 2021, uma das vilãs mais conhecidas do expansivo universo da Casa Mouse ganhou seu próprio projeto: ‘Cruella’ nos levou a conhecer a história não contada da psicótica antagonista de ‘101 Dálmatas’ ao narrar uma divertida e bem-intencionada história estrelada por ninguém menos que a vencedora do Oscar Emma Stone.
É claro que não poderíamos deixar de ficar com um pé atrás com um longa-metragem tão ambicioso quanto este, considerando alguns tiros que saíram pela culatra e que não conseguiram justificar a própria existência. Porém, o resultado do filme foi bem além do esperado, apesar de alguns deslizes óbvios e certas ocasionalidades exageradas, e que alcançaram sucesso através da aplaudível performance de Stone e de um elenco de peso que brilhou em meio a papéis envolventes e arquetípicos dentro de seus limites.
A trama é centrada em Estella (Stone), uma jovem sonhadora que tem uma aptidão inegável para a moda e para criar designs inesperados – e que nunca se conformou em seguir regras ou normas. Desde criança, ela causava problemas por se expressar da maneira mais crua e espontânea possível e, de certa maneira, sempre apoiada pela mãe, Catherine (Emily Beecham). Após ser expulsa da escola, ela e a mãe resolvem recomeçar em Londres, onde Estella poderá investir cada vez mais em seus sonhos de estilista. Porém, a garota acaba causando um incidente inesperado que culmina na morte da mãe e a leva a tomar um rumo em direção à capital inglesa, onde, tentando se curar de uma culpa excruciante, cruza caminho com Jasper (Joel Fry) e Horácio (Paul Walter Hauser), firmando um grupo de golpistas muito talentosos.
A vida de Estella passa por uma reviravolta inesperada quando ela é contratada pela imponente Baronesa von Hellman (Emma Thompson) para trabalhar em seu império da moda – realizando um sonho de décadas que se mostra um tanto quanto agridoce em virtude da personalidade narcisista e ególatra de sua chefe. As coisas escalam a um nível estratosférico quando a nossa protagonista descobre que a Baronesa está em posse de um colar que lhe foi dado como herança quando criança e que, na verdade, foi responsável pela morte da mãe ao ordenar que seus cachorros a atacassem com um apito para cães. Jurando destruir cada uma das coisas que a vilã amava em um vórtice de vingança, ela adota a personalidade de Cruella de Vil e emerge como uma oponente formidável e que defende o novo em detrimento do ultrapassado.
Dirigido por Craig Gillespie, mesmo nome por trás da aclamada cinebiografia ‘Eu, Tonya’, o mote por trás do longa-metragem é a irreverência. O realizador nos leva à efervescência artística e revolucionária dos anos 1970, que acompanhavam os primeiros indícios de mudança estética promovidos na década anterior na música e na arte. E, apoiando-se fortemente no estilo da lendária Vivienne Westwood, Gillespie presenteia os fãs da popular personagem com uma humanização que destoa da explorada em ‘Malévola’ ao arriscar-se com investidas sarcásticas e comicamente sombrias – ainda que certos elementos não tenham alcançado esse êxito como prometido.
Dana Fox e Tony McNamara, responsáveis pelo roteiro, navegam pelo explosivo cenário londrino da época para construir arquétipos fáceis de serem acompanhados e que cumprem com uma praticidade bem-vinda aos live-actions da Disney, cobiçando algo a mais aqui e ali, mas nunca deixando que a avidez descontrolada tome conta do enredo. Por essa razão, a saída foi construir uma anti-heroína complexa que promove referências à assassina de cachorrinhos da animação original à medida que mergulha em território inexplorado e, no geral, bastante convincente.
Stone, que projeto a projeto se reitera como uma das maiores atrizes de sua geração, faz um trabalho admirável como a personagem-título, mantendo-se fiel à identidade já conhecida de Cruella e pincelando sua personalidade com camadas que singram entre a loucura e a sanidade, o bem e o mal – mostrando que a moralidade tem suas áreas cinzentas. Não só isso, mas ela materializa suas investidas contra a Baronesa ao transformar a moda em protagonista, personificando-a em uma relação simbiótica. E, em contraposição, Thompson rende-se a uma teatral e memorável rendição como a odiosa e exclusivista Baronesa, entrando em vibrante irrupção cênica.
O elenco ainda integra a ótima presença de Fry e Hauser, interpretando Jasper e Horácio antes se tornarem os capangas de Cruella e mostrando que a relação do trio era pautada numa amizade verdadeira; Kirby Howell-Baptiste e Kayvan Novak interpretam Anita Darling, uma jornalista talentosa que conhece a disruptiva jovem de seus tempos de escola, e Roger Dearly, advogado da Baronesa e inveterado fã de piano – que são os donos de Pongo e Perdita em ‘101 Dálmatas’. Mark Strong também faz uma aparição como John, confidente da antagonista que secretamente quer derrubá-la, enquanto John McCrea dá vida ao disruptivo Artie, membro da gangue de Cruella.
Cada sequência é coreografada com minúcia artística invejável e parte de situações cômicas e dramáticas que se fundem em um divertido e narcótico escopo, porém, a catártica reviravolta do terceiro ato se rende a excessos óbvios e um pouco frustrantes. Entretanto, o resultado de ‘Cruella’ é bastante positivo e o reitera, quatro anos depois de seu lançamento, como um dos melhores live-actions da Casa Mouse.
Lembrando que o filme está disponível no Disney+.

