No ano 2000, a autora britânica Sophie Kinsella ganhou proeminência ao nos convidar a acompanhar as aventuras de Becky Bloom com o romance ‘Os Delírios de Consumo de Becky Bloom’ – uma divertida comédia romântica literária focada em uma viciada em compras idealista que se mete em confusões inimagináveis envolvendo uma paixão pelo prazer e objetivos utópicos demais para serem realizados. Construindo uma narrativa fácil e despojada de acompanhar, o sucesso do romance original deu uma origem a inúmeras sequências e a uma subsequente adaptação fílmica que chegou aos cinemas em 2009 pelas mãos de P.J. Horgan.
Pegando a essência dos livros de Kinsella em uma releitura livre, a trama é centrada em Rebecca Bloomwood (Isla Fisher), uma jornalista fantasiosa apaixonada por compras e pelo prazer de aproveitar o que a vida tem de oferecer. Sentindo-se em uma plenitude inexplicável quando seu cartão de crédito é aprovado nas várias lojas vibrantes e chamativas de Manhattan, Becky dribla os problemas que insistem em persegui-la com uma negação de seus próprios impulsos consumistas – movida por um otimismo inescapável e pelo companheirismo de sua melhor amiga e colega de apartamento, Suzy (Krysten Ritter).

Becky, inclusive, acredita que só precisa da oportunidade certa para mostrar seu valor, desejando mais que tudo uma vaga na famosa revista de moda Alette, podendo, então, deixar seu trabalho em uma pequena editoria de jardinagem e mostrar ao mundo para o que veio. Quando consegue uma entrevista, nossa heroína se vê realizada – isto é, até descobrir que a vaga já foi preenchida pela estonteante e esnobe Alicia (Leslie Bibb). Porém, nem tudo está perdido, e Becky consegue uma entrevista de última hora para, ironicamente, uma revista de economia supervisionada pelo charmoso e impetuoso Luke (Hugh Dancy), sendo contratada por, de alguma maneira, ter mostrado sua maneira única de enxergar a realidade e transformando-se em uma colunista cujo pseudônimo é A Garota da Echarpe Verde.
O problema é que Becky luta contra seus próprios demônios financeiros, descontrolando-se através de pequenos “prêmios” por seu trabalho duro e afirmando para si mesma que seus gastos, na verdade, são investimentos. Todavia, quando um cobrador de dívidas chamado Derek Smeath (Robert Stanton) começa a persegui-la para que ela pague a fatura de suas compulsões materialistas, Becky percebe que seu recém-encontrado porto seguro pode estar ameaçado e pode colocar em risco sua relação com as pessoas que mais ama na vida.

À época do lançamento, o longa-metragem fez um sucesso considerável de bilheteria ao arrecadar mais de US$108 milhões ao redor do planeta, mas foi massacrado por uma fraca recepção crítica – amargando meros 26% de aprovação no Rotten Tomatoes e duramente criticado por exaltar o consumo desenfreado de maneira indireta. Todavia, ao olharmos de volta para esse projeto, os comentários de que o filme estaria defendendo o materialismo compulsório caem por terra quando sua ideia principal é utilizar a comédia para criticá-lo de maneira inesperada e que funciona em partes e dentro de limites autoimpostos pelo gênero em questão. Navegando pelas atribulações de uma vida profissional recém-iniciada e por obstáculos que deve enfrentar para, enfim, encontrar um merecido amadurecimento, Becky emerge como uma arquetípica protagonista de rom-coms cujo magnetismo é forte o suficiente para nos envolver em uma relação quase parassocial.
Fisher faz um ótimo trabalho em encarnar a protagonista, materializando a personalidade peculiar de Rebecca e roubando os holofotes através de figurinos característicos de sua estonteante presença – e nutrindo de uma química interessante com os outros membros do elenco, principalmente de Ritter e de John Goodman e Joan Cusack, que interpretam seus pais, Graham e Jane. E, em uma subtrama romântica que une Becky e Luke em um convencional arco, é notável a falta de química entre a atriz e Dancy (que, por sua vez, parece apagado em meio ao restante do elenco).

De certa maneira, é notável como o projeto vem à sombra de ‘O Diabo Veste Prada’, que já havia mergulhado nesse universo da moda e do jornalismo de maneira não ortodoxa, funcionando como uma outra adaptação cinematográfica que teve impacto significativo na cultura pop. Entretanto, ainda que as comparações sejam inevitáveis, ‘Os Delírios de Consumo de Becky Bloom’ não tem qualquer intenção de reinventar o gênero ou oferecer uma análise profunda sobre ambição e fraqueza; pelo contrário, Hogan, aliando-se ao roteiro de Tim Firth, Tracey Jackson e Kayla Alpert, oferece um entretenimento prático e dentro do que esperaríamos para uma obra assim.
Lembrando que o filme está disponível no catálogo do Prime Video.
