Lançada em 2021, ‘Grace e Frankie’ trilhou um claro caminho para um sucesso inesperado e que se estendeu por nada menos que sete ótimas temporadas que trouxeram o melhor da comédia e do drama para o streaming. A trama nos apresentou a Grace Hanson (Jane Fonda) e Frankie Bergstein (Lily Tomlin), duas mulheres que, acreditando terem vivido tudo o que tinham para viver, poderiam desfrutar da terceira idade desgostando uma da outra e encontrando-se de vez em quando em virtude dos respectivos maridos, Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston), que trabalham juntos como advogados.
Porém, a vida das duas vira de cabeça para baixo quando Robert e Sol convidam as duas para um almoço para fazer uma revelação inesperada e que as arremessa para um novo capítulo aos setenta anos de idade: ambos estão tendo um caso romântico há duas décadas e resolveram parar de mentir e pedir o divórcio. E isso não é tudo, visto que os dois também desejam se casar e passar o resto de suas vidas um ao lado do outro. É claro que Grace e Frankie entram em uma espiral de frustração e negação que, eventualmente, as coloca no mesmo caminho: a princípio recusando-se a passarem tempo uma com a outra, as duas percebem que o divórcio foi a melhor coisa que aconteceu a elas, transformando-se em melhores amigas e confidentes.

A beleza da série não está apenas em uma premissa inovadora e que logo de cara nos chama a atenção; cada engrenagem dessa divertida jornada coming-of-age é programada para apresentar personagens inéditos ou que, normalmente, não costumam ser retratados com a complexidade e o respeito que merecem. As protagonistas são catapultadas em uma nova jornada de amadurecimento que se inicia na terceira idade e que usa e abusa da experiência que coletaram ao longo de décadas: Grace, tendo se resignado a um casamento de fachada, não acha justo que Sol e Robert tenham encontrado o amor verdadeiro e resolve voltar à ativa dentro do que sabe fazer de melhor – negócios; Frankie, por sua vez, se encontra num vórtice de decepção que a faz buscar escape na arte, em suas “droguinhas” e em um amor inesperado que cruza sua porta.
Cada personagem é delineado de modo a garantir que, cedo ou tarde, o público se apaixone por todos. É claro que nossa relação com as protagonistas titulares é imediata, mas há espaço de sobra para que todos brilhem: Robert e Sol se uniram durante viagens de trabalho que escalaram até uma centelha de paixão e culminando em um amor verdadeiro que explode em cena. Robert, inclusive, descobre uma paixão pelo teatro musical que o afasta do ramo jurídico de divórcios, compelindo Sol a finalmente se aposentar e a se envolver com questões político-sociais como um ativo militante.

Conforme as tramas ganham momento e se tornam mais densas, percebemos que os criadores e showrunners Marta Kauffman e Howard J. Morris têm uma ideia bastante clara e muito solidificada em suas mentes, garantindo que tudo leve seu tempo para acontecer e apresente um equilíbrio entre o cômico e o trágico de forma apaixonante. Ora, Kauffman já havia nos presenteado algumas décadas atrás com seu irretocável trabalho na sitcom ‘Friends’ e, aqui, expande seus talentos para uma franca análise da senescência como ela é – mostrando que descobertas nunca são demais.
A dupla de criadores se alia com um time muito competente de roteiristas e diretores que captura a essência do que precisa ser passado aos espectadores e mergulhando em uma honesta e jocosa interpretação de uma realidade que chega para todos. Kauffman e Morris unem forças para quebrar tabus narrativos e fornecer uma representatividade necessária e que desperta discussões acaloradas sobre a demanda de temáticas centradas em núcleos mais velhos, desde a necessidade de deixar um legado no mundo, a constante nostalgia e a melancolia de possíveis arrependimentos, o amor, o sexo e o prazer na terceira idade, e debates sobre a importância dos idosos na comunidade LGBTQIA+.

A produção também se ramifica para outras temáticas abordadas de maneira respeitosa e que são materializadas pela presença de outras personas. Temos Brianna (June Diane Raphael) e Mallory (Brooklyn Decker), filhas de Robert e Grace que têm seus respectivos problemas para resolverem. Afinal, Brianna se vê constantemente na sombra de sua mãe conforme tenta se desvencilhar de acusações brandas de favorecimento, enquanto Mallory está presa em um casamento falido e num beco sem saída ao cuidar de dois filhos e mais um casal de gêmeos a caminho. Em outro espectro, Buddy (Baron Vaughn) e Coyote (Ethan Embry), filhos adotivos de Frankie e Sol, assumem as rédeas de seus respectivos arcos: Buddy tocará a firma do pai e de Robert e enxerga o mundo de uma maneira bem diferente e centrada em um racionalismo exacerbado; Coyote, recém-saído da reabilitação e mostrando que é um novo homem, tem um espírito livre como Frankie e o coração no lugar certo.
Se você nunca tinha ouvido falar de ‘Grace e Frankie’, não sabe o que está perdendo: uma das melhores séries de comédia das últimas décadas que conta com performances espetaculares de um elenco lendário – e que vale a pena pela simples reunião que Jane Fonda e Lily Tomlin promovem ao longo de sete temporadas.
Lembrando que a série está disponível na Netflix.
