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Dica do Fim de Semana | Confia: Sonho de Cria – A Estreia de MC Cabelinho nos Cinemas


Se a geração dos anos 90/00 cresceu ouvindo o som do funk melody, que embalou décadas da juventude matinê pré-internet com os bailes de favela se espalhando pela cidade (principalmente no Rio de Janeiro), onde as músicas de Claudinho e Buchecha, DJ Marlboro, MC Marcinho, MC Bob Rum e muitos outros fizeram os jovens dançarem até o chão, a geração atual é embalada por outro ritmo: o trap. Uma mistura de rap e de trash, o trap é um subgênero do hip hop que tem ganhado cada vez mais espaço no cenário (ganhou um dia inteiro no rock in Rio 2024 e ganhou este ano um dia inteirinho no The Town). Era questão de tempo até os ídolos do trap migrarem para as telonas e as telinhas. É o que ocorreu este ano com MC Cabelinho, que, após o sucesso de sua participação na novela ‘Vai na Fé’ (Tv Globo), fez este ano sua estreia em longas-metragens, com o filme inédito ‘Confia: Sonho de Cria’, original Globoplay e disponível aos assinantes da plataforma.

Jaque (Malía) é uma menina safa que está tentando fugir de um passado sem perspectivas quando chega no Rio de Janeiro. Mesmo sem conhecer ninguém nem ter dinheiro no bolso, ela dá seus pulos e descola um trabalho na lanchonete Lanchudo, e ela chega tão cheia de autoridade que ninguém nem questiona suas origens. É lá que ela conhece Nando (MC Cabelinho), um jovem que trabalha fazendo as entregas da lanchonete, mas cujo sonho é mesmo ser cantor de trap e se apresentar para as multidões. Indignada com o desperdício de talento do rapaz naquele emprego – e provocada por uma aposta entre eles – Jaque decide ajudar Nando a ganhar os holofotes, e vai usar de toda a sua esperteza (e sua expertise) para fazer Nando acontecer, mesmo que no caminho tenha que manipular algumas verdades para o produtor musical Otto (Saulo Arcoverde).



Considerando que este é o primeiro trabalho no cinema (ainda que feito para o streaming) de MC Cabelinho, é preciso ressaltar o quão natural o jovem cantor se apresenta nas lentes. Ele tem um talento nato para ser tímido, mas cresce quando sobe no palco, e essa mistura de charme com mistério é agradável não só para seu personagem, mas para a carreira que ele pretende construir. Suas interações com Malía (totalmente à vontade com suas falas, seus posicionamentos diante da câmera e sua linguagem corporal) fazem com que o casal protagonista se destoe do resto dos personagens como duas estrelinhas que brilham e refletem uma na outra.

Isto dito, o mais legal em ‘Confia: Sonho de Cria’ é um clima de filme de domingo a tarde que o enredo propõe. A história é igual a muitas outras – um rapaz sonhador que não consegue realizar o sonho e precisa de ajuda para fazer acontecer -, a diferença é onde e como ela é contada. Ao trazer esse mote para o contraste favela e asfalto da zona sul do Rio de Janeiro, os roteiristas Renata Sofia, Pedro Alvarenga e Fabrício Santiago inserem no filme de Fábio Rodrigo o puro suco de errejota em todos os diálogos, especialmente na personagem Jaque, super safa sempre com uma resposta na ponta da língua para conseguir sobreviver no sufocante contexto urbano altamente competitivo.

Para além da primeira camada do protagonista sonhador, é o que se desenrola nos bastidores que é interessante: a forma como o filme delineia a facilidade (e a espécie de necessidade) de se manipular a mídia e os alto-escalões da indústria fonográfica para conseguir fazer acontecer. Em outras palavras, o filme também aponta como talento é importante, sim, mas sem uma boa estratégia de marketing, muitos talentos ficam para sempre escondidos nas lanchonetes da esquina.

Confia: Sonho de Cria’ pode ser visto como entretenimento pós-almoço de domingo, mas também como um bom estudo de caso de marketing. Uma boa dica para divertir e inspirar.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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