Antes de começar, um aviso importante: esta não é uma lista de previsões do Oscar. Não estou tentando adivinhar quem vai ganhar ou quem tem mais chances na indústria, já sabemos que esta posição pertence a Uma Batalha Após a Outra e, em segundo lugar, Pecadores.
Essa é simplesmente uma lista pessoal, baseada na minha experiência vendo esses filmes. A maioria deles eu assisti ainda no ano anterior, antes mesmo de alguns títulos mais recentes chegarem ao circuito. Então, aqui vai meu ranking do pior ao melhor entre os indicados a Melhor Filme na 98ª edição dos prêmios da Academia Cinematográfica de Hollywood, em 2026. Nesta domingo, 15 de março, acompanhe a live pré-premiação no canal do YouTube do CinePOP, a partir das 18h (horário de Brasília).
Aliás, você sabia que apenas três filmes da América Latina foram indicados a Melhor Filme em quase 100 anos de premiação — e todos apenas nos últimos oito anos? Dois deles são brasileiros: O Agente Secreto (2025) e Ainda Estou Aqui (2024), e o mexicano Roma (2018), de Alfonso Cuarón. Depois dessa curiosidade, vamos ao ranking:
10º lugar — Bugônia

Em último lugar está Bugônia, novo filme de Yorgos Lanthimos. Lanthimos é um diretor que eu admiro muito. Há alguns anos ele apresentou ao mundo Pobres Criaturas (2023), um filme absolutamente fascinante, que encantou muita gente — inclusive eu.
Infelizmente, no entanto, seus dois projetos mais recentes não me convenceram: Tipos de Gentileza (2024) e agora Bugônia. Os dois filmes parecem muito construídos ao redor da presença de Emma Stone, que continua sendo magnética na tela. O problema é que as histórias perderam algo essencial do cinema de Lanthimos.
Antes, o fascínio vinha da loucura do comportamento humano dentro da sociedade. Agora, ele parece apostar mais em um aspecto sobrenatural ou absurdo que, para mim, cria um distanciamento emocional muito grande. Em vez de me envolver, o filme me afastou.
9º lugar — Uma Batalha Após a Outra

Eu sei que muitos críticos e espectadores consideram esse um dos melhores filmes do ano, mas sinceramente eu não consigo enxergar isso. O filme tem algumas cenas muito boas. Por exemplo, a sequência em que Leonardo DiCaprio, completamente drogado, tenta lembrar a senha é bom entretenimento. E também há a perseguição de carros nas estradas do vale montanhoso, que cria uma tensão muito eficaz.
Mas, fora isso, muitos personagens secundários são difíceis de engolir. Existe uma tentativa de fazer uma espécie de comentário irônico sobre política e ideologia — como se todos estivessem errados ao mesmo tempo — mas, para mim, isso acaba não apontando para lugar nenhum.
Quando saí do cinema, pensei imediatamente em How to Blow Up a Pipeline (2022), que sim me parece um filme realmente radical e provocador. Comparado a ele, Uma Batalha Após da Outra parece muito mais indeciso. Aliás, colocar armas nas mãos de mulheres negras não traz empoderamento para elas em um enredo circense sobre dois caras brancos. Elas aparecem como elenco de apoio, sem passado ou futuro, diferente das mulheres de À Prova de Morte (2007), de Quentin Tarantino.
8º lugar — Frankenstein

Na oitava posição está Frankenstein, dirigido por Guillermo del Toro. Visualmente, o filme é admirável. A direção de arte é lindíssima, como já era de se esperar. Entretanto, a primeira parte do filme, centrada em Oscar Isaac como Victor Frankenstein, me parece muito arrastada. Ele divaga sobre a criação da criatura e sobre os traumas com o próprio pai, mas o filme demora demais para realmente entrar em movimento.
A narrativa só ganha força quando a perspectiva muda e a história passa a ser conduzida pela criatura, interpretada por Jacob Elordi. Quando isso acontece, finalmente surge curiosidade e humanidade na história. O mundo passa a ser observado por olhos novos, e o filme ganha uma fluidez que antes não existia. Não salva completamente a obra, mas permite bons vislumbres do que podia ser melhorado no roteiro.
7º lugar — F1

É um filme divertido de assistir, principalmente graças ao carisma de Brad Pitt. Ele domina a tela com facilidade, trazendo charme para esse piloto veterano que volta às pistas para uma última chance. As piadas sobre envelhecimento e obsolescência funcionam bem.
O romance dele com a engenheira da equipe é um pouco morno, mas ainda assim crível. Já a dinâmica com o jovem companheiro de equipe Joshua (Damson Idris) tenta explorar um conflito geracional, alguém mais disperso, criado nas redes sociais, que ainda não se entrega completamente ao trabalho.
O problema é que esse personagem nunca parece realmente à altura do confronto dramático. Ainda assim, o filme tem uma sequência extraordinária: a cena em que o personagem de Pitt diz que “voa” na pista. A câmera mostra a corrida pela viseira do capacete e cria uma sensação sufocante dentro do carro. No cinema, essa cena é incrível.
6º lugar — Marty Supreme

Aqui já entramos na parte da lista em que eu realmente gosto dos filmes. O longa carrega muito da assinatura dos irmãos Benny Safdie e Josh Safdie, os mesmos de Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2020), embora seja apenas do Josh. Existe aquela sensação constante de urgência: personagens fora de controle, diálogos caóticos, uma energia nervosa que parece prestes a explodir.
Eu adoro esse tipo de cinema, mas confesso que Timothée Chalamet me saturou um pouco nesta temporada. o roteiro é dinâmico e se move em várias direções. Em alguns momentos, o filme até me lembrou Rivais (2024), do Luca Guadagnino, especialmente na forma como usa o esporte como campo de batalha emocional.
Só que, enquanto Rivais tinha uma energia quase hipnótica, com trilha sonora pulsante e tensão erótica, Marty Supreme parece mais interessado em explorar o ego e a obsessão do que o talento em si. Ainda assim, é um filme bastante envolvente.
5º lugar — Sonhos de Trem

Esse é um filme belíssimo. Ele tem algo raro hoje em dia: a capacidade de contar uma história simples com extrema delicadeza. É como um trabalho de carpintaria perfeito, sem ornamentos desnecessários, mas feito com precisão e cuidado.
Cada cena parece talhada com calma. O filme nos faz observar a natureza, as árvores, o fogo, os sons da floresta. Existe ali uma sensação profunda de nostalgia e de luto do protagonista vivido por Joel Edgerton, como se estivéssemos olhando para um pedaço silencioso da história americana. É um cinema contemplativo, quase artesanal. E justamente por isso, melancólico e bonito de assistir.
4º lugar — O Agente Secreto

Kleber Mendonça Filho é um cineasta que eu acompanho desde muito cedo. Desde os tempos em que ele era crítico e jornalista de cinema já era possível perceber ali um olhar profundamente apaixonado pela sétima arte.
Meu filme favorito dele ainda é Aquarius (2016), mas O Agente Secreto parece reunir um pouco de tudo que ele vem construindo ao longo da carreira. O filme mistura cinefilia, memória histórica e identidade brasileira, trazendo a terra, as pessoas e as tensões do país para um cinema ambicioso e extremamente criativo.
O que mais me fascina é a maneira como ele incorpora elementos quase sobrenaturais e fantásticos para falar da realidade brasileira do passado. Esse tipo de abordagem não é tão comum no nosso cinema. Quando pensamos em histórias ambientadas no passado, geralmente encontramos adaptações literárias ou filmes centrados em personagens históricos, como Carlota Joaquina: Princesa do Brasil (1995), Joaquim (2017) e A Viagem de Pedro (2021). Histórias sobre pessoas comuns vivendo naquele período são muito mais raras. O Agente Secreto é um filme importante não apenas como obra artística, mas também como registro da nossa memória coletiva.
3º lugar — Valor Sentimental

Eu sou assumidamente fã do trabalho do diretor Joachim Trier. Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos é A Pior Pessoa do Mundo (2021). Aqui ele reencontra Renate Reinsve, que para mim é uma das grandes atrizes da atualidade. Ela tem uma capacidade impressionante de dar intensidade e presença física aos personagens.
Ela fez isso de maneira extraordinária no filme anterior com Trier e, novamente, aqui. Valor Sentimental é um melodrama, mas não um melodrama convencional. É um melodrama sobre família, cinema e a própria indústria.
Esse tipo de história tem uma força especial porque fala diretamente com quem vota na Academia. Não por acaso, ele aparece como um forte concorrente internacional de O Agente Secreto. O roteiro, escrito por Trier junto com Eskil Vogt, mantém a marca registrada da dupla: personagens emocionalmente complexos e histórias que observam com delicadeza as fragilidades humanas.
2º lugar — Pecadores

Esse foi um dos filmes que mais me surpreendeu no ano passado. Eu vi o filme sem saber quase nada sobre ele e fiquei completamente fascinada. Michael B. Jordan está imponente no filme, porém o que realmente me marcou foi a construção visual e simbólica da história.
Existe uma sequência específica — a cena do baile com os acordes crescendo e revelando as influências das raízes africanas na música — que para mim já entrou para a história do cinema. Eu disse isso quando o filme estreou e continuo acreditando nisso. Pecadores também é um filme muito poderoso por colocar mulheres negras em posições ativas, com personagens fortes, complexas, desejantes e audaciosas, algo ainda raro em muitas narrativas de Hollywood.
São mulheres com autonomia, com sexualidade, com presença, algo que ainda é raro em muitas narrativas de Hollywood. O filme fala sobre divisão, sobre identidade e sobre resistência. Sobre como o mundo tenta nos separar, e como existe sempre uma luta para que possamos existir juntos apesar dessas forças. Não me surpreende que o filme tenha recebido 16 indicações ao Oscar. Ele realmente marcou esta temporada.
1º lugar — Hamnet

Esse foi o filme que mais me emocionou no ano passado. Eu assisti duas vezes e nas duas vezes fui profundamente tocada. Muita gente critica o filme dizendo que ele manipula emocionalmente o espectador. Para mim, entretanto, existe uma diferença enorme entre manipulação barata e emoção construída com honestidade.
Eu sempre lembro de alguns melodramas que claramente tentam arrancar lágrimas do público, mas não conseguem porque falta verdade. Hamnet, por outro lado, tudo funcionando em perfeita harmonia: montagem, música, direção e atuação.
Chloé Zhao cria um fluxo emocional que parece inevitável. É um filme sobre perda, memória e amor. A narrativa me atingiu de uma maneira muito rara. Para mim, Hamnet é o melhor filme do ano.

