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Dolores Fonzi fala sobre ‘Belén’, filme argentino que emocionou o mundo e que pode chegar ao Oscar 2026


Escolhido para representar a Argentina no Oscar 2026 e exibido na seleção oficial do Festival do Rio 2025, Belén é o novo trabalho da cineasta e atriz Dolores Fonzi — uma complexa obra que faz uma difícil reflexão social a respeito de um dos assuntos mais controversos ao redor do mundo: o aborto.

Baseado no livro Somos Belén, de Ana Correa, o longa acompanha Julieta (Camila Plaate), uma jovem vítima de um aborto espontâneo que é falsamente acusada de interromper sua gestação de maneira ilegal. Com o apoio da advogada Soledad Deza (vivida por Fonzi), ela enfrentará os tribunais sociais a fim de provar sua inocência e quem sabe mudar o cenário argentino de forma permanente.

Ambientado em Tucumán, Belén revisita um episódio real ocorrido em uma Argentina marcada por tensões morais e jurídicas. Com direção delicada e atuações potentes, o filme se propõe a discutir o que há de mais universal nas histórias de injustiça: o desejo humano por dignidade e empatia.



O preço do silêncio

Em entrevista ao CinePOP, durante o Festival do Rio 2025, Fonzi recordou o que mais a impressionou ao conhecer o caso retratado no filme:

“O que me pareceu mais absurdo é como, em uma cidade pequena como Tucumán, ninguém soube que ela estava presa por dois anos e meio. Isso é o mais impressionante. As próprias advogadas que descobriram o caso diziam: ‘como é possível que não tenhamos sabido?’”

A diretora reflete que o isolamento de Julieta simboliza um silêncio coletivo — e também a força contida na própria protagonista.

“Ela não queria que ninguém soubesse, e conseguiu isso. Quando quis que se soubesse, tudo veio à tona. Há algo poderoso nesse gesto: foi presa e desapareceu. E, de repente, reaparece e muda tudo.”

Uma jornada de redescoberta através da direção

Depois de uma longa trajetória como atriz, Fonzi decidiu se aventurar para atrás das câmeras, em um processo de transição que ela considera ter sido natural, ainda que tenha sido marcado por diversos desafios e adequações.

“O mais difícil é confiar que vai dar certo. Na primeira vez, foi complicado entender como seria atuar e dirigir ao mesmo tempo, mas acabou sendo mais fácil do que eu imaginava. O segredo é se cercar de uma equipe talentosa, em quem você acredita e pode descansar. Dirigir é um ato de confiança coletiva.”

A cineasta conta que a ideia de adaptar o livro de Ana Correa surgiu após a experiência de seu primeiro longa como diretora:

“Quando o livro saiu, eu ainda não tinha dirigido. Só depois da minha primeira experiência na direção é que me propuseram fazer Belén. Não era um projeto que eu imaginava dirigir, mas quando o convite chegou, me pareceu um presente.”

Entre a esperança e o desalento

E diante de um assunto tão controverso, que fortalece ainda mais a polarização política e social ao redor do mundo, a diretora argentina tenta manter a esperança de um novo tempo onde a aceitação do outro seja superior às diferenças ideológicas. Demonstrando uma certa preocupação com o cenário atual, ela salienta sua fé profunda na arte como uma espécie de manifesto:

“É difícil acreditar que o mundo vai se unir, porque às vezes parece que há pessoas sem alma. Mas há outras com alma — e Belén é um filme com alma. É sobre sentir, sobre se conectar com o humano. O que podemos fazer é resistir criando a partir do coração, da empatia e do amor. Essa é uma história que fala sobre união, sobre o poder do coletivo. Porque só quando as pessoas se unem é que algo realmente muda.”

E ainda que Belén seja um complexo relato sobre a autonomia corporal da mulher, o longa busca cruzar os questionamentos a que se propõe, a fim de transcender a densa e exaustiva conversa sobre o aborto. Ao afirmar que sua obra é de fato sobre a essência do que é ser humano perante questões tão difíceis, Fonzi lembra a si mesma e a audiência sobre o poder de contar histórias que sejam relacionáveis e que nos permitam enxergar o outro para além de suas convicções – ainda que sejam divergentes ou contraditórias.

“Acho que a força do filme vai além do tema. É sobre empatia, sobre se unir, sobre não ficar indiferente. É sobre o que acontece quando alguém escolhe não olhar para o lado”, concluiu.

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