007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, já está em exibição nos cinemas. Com o lançamento do grandioso filme, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo para você inúmeras curiosidades e muita informação.

Após um período em baixa nos anos 80 na era de Roger Moore, a franquia 007 atingia o “fundo do poço” no que diz respeito aos números de bilheteria e popularidade junto ao público. Isso marcou a era de Timothy Dalton de forma bem negativa, com muitos atribuindo ao ator, que personificou um James Bond mais sisudo e sombrio, o resultado fraco de tais filmes. Hoje, suas obras ressurgem como cult e pontos fora da curva, mas na época em que precisavam de sucesso foram ignoradas. Tudo culminou com Permissão para Matar, considerado o primeiro verdadeiro fracasso no currículo do espião 007. Os produtores então decidiram tirar um hiato de seis anos para se reorganizar e apresentar a franquia para os anos 90 de forma eficaz. E o trabalho deu muito certo, resultando em Goldeneye – o décimo sétimo filme – que trouxe o James Bond de toda uma geração, a minha, nas formas de Pierce Brosnan. Um grande acerto como há muito não era visto, é claro que os produtores colocaram rapidamente em movimento uma continuação. Confira abaixo os detalhes sobre O Amanhã Nunca Morre, o décimo oitavo filme da franquia 007.

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Produção



Goldeneye havia sido um sucesso estrondoso, elevando a franquia a números astronômicos de bilheteria e entrando na briga dos blockbusters dos anos 1990 de igual para igual. Era o acerto que a EON Pictures desejava há muito tempo, desde a saída de Sean Connery da franquia. Assim, obviamente um sinal verde era dado de imediato para uma sequência. Ao contrário da viagem tranquila e satisfatória que havia sido o décimo sétimo filme da franquia, o longa seguinte se mostraria uma verdadeira epopeia para todos os envolvidos. A começar pela ausência de Albert R. Broccoli, o “pai” de James Bond no cinema / produtor de todos os filmes da franquia, falecido em 1996 aos 87 anos. Goldeneye foi o último filme lançado pelo produtor. Daqui para frente, as obras ficariam a cargo de sua filha, Barbara Broccoli e do enteado Michael G. Wilson.

Pode não parecer, mas um produtor de pulso firme muitas vezes é o responsável pelo sucesso de um longa, em especial uma superprodução como os filmes de 007. E sem dúvida o Broccoli pai fez falta. Isso porque a produção de O Amanhã Nunca Morre se mostrou uma das mais caóticas da toda a franquia. O fator determinante para isso foi a falta de entrosamento da equipe e do elenco, para dizer no mínimo. Para o comando da produção foi contratado Roger Spottiswoode, especialista em ação tendo escrito 48 Horas e dirigido Air America – Loucos pelo Perigo. Acontece que Spottiswoode transformou as filmagens num ambiente pouco amistoso, não desenvolvendo uma boa relação com nenhum de seus atores, em especial o protagonista Pierce Brosnan. De fato, o ator disse que as gravações não foram nem de longe prazerosas.

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James Bond

Pierce Brosnan havia disputado o papel no passado, mas perdido a vaga para Timothy Dalton depois que os produtores da série Jogo Duplo (Remington Steele) não o liberaram para assumir o personagem 007 no cinema. Mas enfim sua vez chegaria alguns anos depois e o ator não poderia estar mais empolgado em sua performance em Goldeneye. Brosnan foi a cara de James Bond para os anos 90 e sua estreia ocorria com o pé direito. Muito disso mudaria logo em sua segunda incursão como o agente secreto. Mostrando que o ambiente de trabalho é tudo, mesmo quando pensamos ter o melhor trabalho do mundo, os bastidores de O Amanhã Nunca Morre se mostraram um pesadelo para todos os envolvidos, em especial o protagonista.



Além de não ter se dado com o diretor do longa Roger Spottiswoode, Pierce Brosnan fez campanha para Anthony Hopkins viver o vilão e Sharon Stone ser uma das Bondgirls. Além disso, queria ver Martin Campbell, diretor de Goldeneye de volta à cadeira de comando. Porém, o cineasta estava ocupando com as filmagens de A Máscara do Zorro (1998), que contava com Hopkins no elenco. Ao invés de Stone e Hopkins, Brosnan ganhava em seu elenco Teri Hatcher e Jonathan Pryce – igualmente não mantendo um bom relacionamento com nenhum dos dois. Na época, as más línguas diziam que a relação de Brosnan e Hatcher era tão pesada, que a atriz teria tido seu papel no longa reduzido. De fato, Hatcher talvez seja a Bondgirl de renome com menos tempo em tela na franquia. Com Pryce as coisas não melhoravam e os dois sequer eram vistos juntos nos mesmos programas divulgando o filme.

Missão Secreta

Apesar dos bastidores caóticos, O Amanhã Nunca Morre, particularmente, possui uma das histórias mais criativas dos últimos exemplares da franquia. Bem, ao menos no papel. Sim, pode ser caricato e até mesmo um pouco fantasioso, mas qual filme da série no cinema não o é. Acontece que na segunda aventura de Brosnan como James Bond, o espião bate de frente com um magnata da mídia megalômano, que arquiteta planos de guerra entre a China e o Reino Unido a fim de enriquecer ao ter a cobertura em primeira mão. Já era um vislumbre de como a mídia pode ser prejudicial e alarmista, além de uma amostra já naquele tempo das fake news. Aqui, fabricar as notícias para cobri-la. Não deixa de ser interessante a modernização dos vilões megalomaníacos e seu meio de ataque. Sem dúvidas é único.

Bondgirls e Aliados

Se tem um aspecto muito positivo em O Amanhã Nunca Morre, enaltecido até mesmo pelos detratores do filme, é a Bondgirl principal vivida pela atriz e especialista em artes marciais Michelle Yeoh – depois conhecida internacionalmente por seu papel em O Tigre e o Dragão (2000). Yeoh, no entanto, já era uma estrela na China e parceira de aventuras do icônico Jackie Chan. Sua transição para Hollywood e o mundo chegava como a agente secreta Wai Lin, uma espiã chinesa designada a investigar as manipulações criminosas do vilão, e o contraponto de James Bond. Sim, é verdade que já havíamos tido espiãs duronas no passado da franquia, em especial a agente russa Triplo X (de Barbara Bach) em O Espião que me Amava foi uma das que mais marcou. Porém, a Wai Lin de Yeoh rouba verdadeiramente a cena de Bond, inclusive rendendo as melhores cenas de ação (já que a atriz é uma especialista).

Michelle Yeoh e sua Wai Lin impressionaram tanto que os produtores da franquia Barbara Broccoli e Michael G. Wilson empurraram bastante para que a personagem ganhasse sua própria franquia derivada. Na época muitos boatos sobre isso surgiram, e eram todos verdadeiros. Teria sido muito legal ver Wai Lin em suas aventuras solo – demonstrando a força que a personagem teve acima de qualquer outra Bondgirl no passado. Porém, os chefes dos estúdios da MGM e United Artists acharam que Michelle Yeoh não era um rosto muito conhecido ainda na América e não teria força para carregar uma franquia sozinha. Uma pena.



Já a segunda Bondgirl de O Amanhã Nunca Morre é Paris Carver, esposa do vilão e magnata da mídia Elliot Carver. A rica esposa troféu teve um caso com James Bond antes de seu casamento e se sente traída e abandonada pelo espião. Ao cair nos braços de Bond novamente, Paris tem o destino que muitas mulheres abusadas por seus maridos possuem: são mortas por eles. O papel da trágica Paris ficou com Teri Hatcher, atriz em alta na década de 1990 devido ao papel de Lois Lane no seriado sensação Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman, que estreou em 1993 e durou até 1997, ano de lançamento do décimo oitavo 007.

Já em termos dos usuais aliados de James Bond, a Dama Judi Dench e Samantha Bond voltam as papeis da chefe M e da secretária Moneypenny, tendo ambas estreado na era Brosnan. Quando falamos em Desmond Llewelyn, falamos no veterano que mais participou na frente das câmeras da franquia – aqui atingindo a marca de dezesseis filmes como o armeiro e inventor Q. Essa, no entanto, seria a última vez que ele apareceria de forma solo, já que no próximo episódio seria presentado com um assistente substituto.

Vilões

Quando falamos no grande vilão de O Amanhã Nunca Morre entramos num terreno delicado e muito divisor de opiniões. Há os que acham que Elliot Carver não é uma ameaça intelectual, muito menos uma ameaça física ao espião 007 – e que na verdade ele serviria como capanga destes que são descartados facilmente no primeiro ato. Interpretado pelo grande Jonathan Pryce de uma forma caricata – como muitos vilões megalomaníacos da franquia são -, o magnata da mídia é dito ser uma referência a Rupert Murdoch, bilionário dono de um império internacional de jornalismo, cujos veículos de sua propriedade incluem o The Wall Street Journal, New York Post e a Fox News. Poder de informação não falta ao sujeito.

Particularmente, estou no time dos que consideram Elliot Carver um vilão criativo, muito em sintonia com os novos tempos e de certa forma pioneiro no que veríamos no mundo globalizado de hoje; no qual se algo não for transmitido ou filmado não aconteceu de fato. Carver é a ponta do iceberg do que vemos hoje. O que por bem ou por mal, faz do vilão e de O Amanhã Nunca Morre um episódio visionário de 007. Simplesmente não entendo os que consideram o filme um dos pontos baixos e menos memoráveis da franquia. Caricato e cartunesco, sem dúvidas. Exagerado por vezes, definitivamente. Porém, muito moderno e divertido.


Relatório

Como dito, no fim das contas O Amanhã Nunca Morre é um episódio divisor entre os fãs de 007 – existem os que o desmerecem e os que o valorizam por sua criatividade e eficiência. Não negamos que dá para sentir uma mudança radical no teor em relação ao bem mais sóbrio Goldeneye – uma homenagem direta aos clássicos com Sean Connery. O Amanhã Nunca Morre definitivamente trazia a era Brosnan para o território de Roger Moore. Porém de forma muito satisfatória, como não havia sido apresentada anteriormente. É dito inclusive até mesmo pelos que não apreciam o longa, que o décimo oitavo filme contém algumas das melhores cenas de ação da franquia, como toda a sequência da moto e do helicóptero, e o carro controlado pelo celular num estacionamento.

Em relação à música tema, a era Brosnan marcava algumas das canções mais icônicas da franquia, como dito anteriormente. Além de Tina Turner interpretando a homônima Goldeneye, era a vez da roqueira Sheryl Crow dar sua versão de Tomorrow Never Dies.

Fora isso, traz uma Bondgirl tão boa que por pouco não ganhou seu próprio derivado. O público estava sedento para ver a continuação de Goldeneye e nas bilheterias O Amanhã Nunca Morre não decepcionou. Apesar de bater de frente, estreando no mesmo dia do rolo compressor Titanic, de James Cameron, que vivia para se tornar a maior bilheteira do cinema, O Amanhã Nunca Morre fez bonito, conseguindo superar em caixa os números de seu predecessor e garantindo sinal verde para uma sequência imediata com Pierce Brosnan. Aos poucos, a era do ator vinha se tornando a mais bem sucedida de muito tempo – e a franquia James Bond voltava às boas em sua popularidade. Assunto a ser continuado no próximo Dossiê.

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