Filme entra no grupo de possíveis grandes obras que jamais nasceram

Com estreia marcada para outubro, a primeira parte de Duna é aguardada com grande expectativa por parte do público que já conhece o material fonte escrito por Frank Herbert em 1965, quanto pelo grupo mais generalizado que apenas teve acesso à infame adaptação cinematográfica dos anos 80 dirigida por David Lynch. Os trailers divulgados até então exibem o já esperado esmero do departamento de design da produção bem como uma fotografia refinada, detalhes que não tem fugido à regra dos últimos filmes de Denis Villeneuve.

O diretor canadense, aliás, é um elemento à parte responsável por um pouco da expectativa de determinada parcela do grande público. Suas duas últimas obras na ficção científica (A Chegada e Blade Runner 2049) tem seu quinhão de adoradores. Ainda assim, Duna é um projeto com uma longa tradição no cinema que varia entre execuções ruins, um remake carregado de esperança e uma versão jamais feita.

Ao final dos anos 60 e início dos setenta o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky ganhava notoriedade dentre um público de nicho. Originário do teatro, o diretor desde cedo se notabilizou pelas abordagens surrealistas em seu trabalho nos palcos; em 1957 ele iniciou sua conversão definitiva para o cinema com o filme La Cravate. O amplo conhecimento, entretanto, viria apenas em 1970.



Villeneuve já mostrou que gosta de trabalhar com materiais dos quais ele é fã de longa data

Nesse ano ele lançou nos cinemas o western surrealista El Topo, obra protagonizada pelo próprio Jodorowsky e tendo seu filho, Brontis de oito anos, no papel coadjuvante de também filho do protagonista. Foi a partir desse projeto que um público maior pode ter acesso ao estilo do diretor em seus filmes, no qual apesar dele não ter qualquer pudor em mostrar violência gráfica ou nudez, elas possuem um significado bem como uma função de expor em tela as filosofias pessoais do idealizador acerca de assuntos como a vida e esoterismo.

Ajudou também o fato do filme ter tido um trabalho de divulgação muito positivo na Europa e de praticamente tudo nele encontrar mais apoio dentre esse público do que no norte-americano ou da América Latina. O sucesso da empreitada lhe condicionou a possibilidade de lançar seu próximo objetivo, este que dentre os que chegaram às mãos do espectador é o mais conhecido.

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Tudo em A Montanha Sagrada de 1973 é elaborado pelo diretor para ter um efeito de ser um sonho consciente; desde os cenários geometricamente diversos, passando pelo enredo interpretativo essa obra manteve o estilo de Jodorowsky de utilizar elementos repulsivos para expor suas crenças. Um exemplo é uma situação em que um personagem expele um excremento que é nada menos que ouro, fazendo uma ponte com a ideia geral presente na alquimia sobre a transmutação.

“A Montanha Sagrada” é uma experiência única.

Novamente a reputação do realizador se consolidou dentre seu nicho e Montanha Sagrada se tornou rapidamente um clássico alternativo. Foi somente após essa estreia que o diretor, após conversar com um amigo e produtor sobre qual seria seu próximo filme, afirmou sem hesitar que desejava adaptar Duna, mesmo que esse fosse um livro que ele até então não havia lido.



Após ter acesso ao primeiro volume da obra, ele decidiu que seguiria por um caminho um tanto quanto diferente, principalmente no tocante ao protagonista Paul Atreides. Jodorowsky tinha o objetivo de retratar Paul como um messias no sentido mais literal possível, ou seja, por meio de um nascimento não natural. A primeira grande mudança na mitologia do livro seria que o pai do protagonista, o duque Leto, seria castrado e sua esposa conceberia Paul por meio de uma gota de seu sangue.

Essa decisão já simbolizava a intenção do diretor, desde cedo, em transpor para Duna suas crenças tal como ele havia feito com todos os seus trabalhos até então. Para o papel principal ele escolheu seu filho, que já havia atuado no mencionado El Topo, e que aplicou no mesmo uma rotina de treinamentos físicos e mentais intensa para prepará-lo. Para os efeitos especiais Jodorowsky foi atrás de Dan O’Bannon, o responsável pelos visuais no filme Dark Star de John Carpenter.

Os efeitos especiais produzidos por O’Bannon atraíram a atenção de Jodorowsky.

Para projetar o design de produção ele contratou Jean Giraud, um dos mais conhecidos quadrinistas franceses à época. Para a composição da trilha sonora o método adotado por Jodorowsky foi um pouco diferente do usual. Ao invés de um único compositor responsável pela variação de músicas, ele decidiu que cada planeta (e consequentemente núcleo narrativo) teria um compositor diferente e com estilos diferentes. 

Dessa maneira o clã Atreides (principal) teria uma trilha elaborada pela banda Pink Floyd, já os seus inimigos mortais, a casa Harkonnen (os vilões da trama), teria uma trilha composta pela banda Magma, cujo estilo era mais voltado para o rock progressivo. Em determinado momento, Jodorowsky contratou H. R. Giger para projetar o cenário do planeta natal dos Harkonnen uma vez que seu estilo flertava com o gótico e tinha a sensação sombria que Jodorowsky queria para esses personagens.

Artes conceituais de Giger indicavam o terror visual acerca dos Harkonnen e que mais tarde seriam reaproveitados em “Alien”.

Conforme a produção seguia o diretor ia atrás de nomes cada vez mais incomuns para o elenco; para dar vida ao obeso líder Vladimir Harkonnen ele convidou o famoso Orson Welles, que na época já era considerada persona non grata em Hollywood. Já para o papel de imperador da galáxia, ele escolheu ninguém menos que o pintor Salvador Dalí que estabeleceu como condição o pagamento por minuto de US$ 100.000. 

Conforme o filme ganhava mais forma e, consequentemente, se expandia o preço da produção também crescia consideravelmente. Faltando alguns milhões para enfim poder iniciar as filmagens, Jodorowsky teve que recorrer aos estúdios de Hollywood para obter financiamento. Foi ali que seu projeto foi interrompido, uma vez que mesmo estando totalmente estruturado e sendo apresentado com detalhes pelo diretor ele era recusado por não possuir uma linguagem natural ao que Hollywood concedia às ficções científicas da época.

Arte conceitual de como seria o visual do personagem de Salvador Dalí

Após o fenômeno que foi a representação técnica da tecnologia do futuro e de vidas alienígenas visto em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, apresentar esse mesmo tema sob uma luz esotérica e messiânica, como seria visto em Duna, era algo que fugia ao que os estúdios buscavam no momento.



Conforme exposto pelo diretor no documentário Duna de Jodorowsky, esse foi um projeto que tinha a possibilidade de construir o conceito de blockbuster e mudar o gênero de ficção científica no cinema anos antes de Star Wars ser lançado em 1977. Ainda assim, o mesmo defende a tese de que ideias de seu projeto (como estética de figurinos e cenas) foram reaproveitados em diversos filmes que vieram nos anos seguintes e isso, sob um certo ponto de vista, indica que seu Duna nunca morreu de fato mas se tornou a maior ficção cientifica jamais feita.

 

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