Neste ano, o Bonito CineSur incorporou à sua programação uma bela e significativa iniciativa: a homenagem ‘As Pegadas da Memória do Cinema Sul-Americano’. Dividida em dois momentos — um na abertura e outro na reta final do festival —, a ação foi realizada em parceria com a Prefeitura de Bonito e propõe uma união simbólica entre arte, meio ambiente e preservação da memória, reverenciando grandes nomes do audiovisual sul-americano.

Entre os homenageados desta edição do Bonito CineSur está o veterano documentarista Aurélio Michiles. Com mais de quatro décadas de trajetória dedicadas a retratar a região e os povos amazônicos, o cineasta de 72 anos marcou presença no festival realizado em Mato Grosso do Sul. Diretor de obras marcantes como Davi contra Golias, Brasil Caim (1993), O Cineasta da Selva (1997) e Segredos do Putumayo (2020), Michiles construiu uma filmografia potente, marcada por denúncias sociais e mergulhos profundos na identidade brasileira. Em uma conversa breve, mas intensa, ele compartilhou reflexões valiosas sobre os rumos e desafios do documentário no Brasil contemporâneo.

Um dos fenômenos mais importantes do cinema brasileiro é, sem dúvida, o movimento do documentário”, afirmou logo de início o veterano cineasta. “Tínhamos uma tradição mais voltada ao cinema ligeiro, de reportagem, mas essa linguagem foi evoluindo. Não se trata de negar o passado, e sim de reconhecer uma transformação. Temos grandes documentaristas, realizadores transgressores, que trabalham com narrativas híbridas entre ficção e documentário. Dois nomes que me vêm imediatamente à cabeça, verdadeiros pilares dessa arte, são Jorge Bodanzky e Eduardo Coutinho — cineastas com estilos distintos, mas autores de obras fundamentais para que possamos nos reconhecer enquanto brasileiros.”

Sobre o papel do documentarista brasileiro, Aurélio Michiles é direto: “O papel do documentarista é revelar o Brasil, mostrar quem somos. Aqui no Bonito CineSur, que também é uma mostra de cinema ambiental, essa missão ganha ainda mais força ao trazer à tona uma ameaça urgente: a crise ambiental. Muitos filmes sul-americanos exibidos abordam um tema em comum — a água. E isso é surpreendente, porque afinal, o que somos senão feitos de água? E o que mais nos falta? Água potável, de qualidade. Nossos mananciais estão sendo destruídos. O cinema documental, nesse contexto, pode ser uma poderosa ferramenta de denúncia e mobilização em defesa de um bem comum.”

O Bonito CineSur segue até o dia 2 de agosto, exibindo uma seleção expressiva de filmes que representam a força e a diversidade do cinema sul-americano. Com presenças ilustres e uma curadoria cuidadosa, o festival se consolida como uma das mostras cinematográficas mais relevantes e plurais do Brasil.
