O Banquete, novo trabalho potente da cineasta autoral Daniela Thomas, está em cartaz pelos cinemas brasileiros. E se você não assistiu não perca mais tempo e corra para o cinema. O CinePOP teve a oportunidade de conversar com a diretora sobre o filme. Confira abaixo a conversa que Pablo Bazarello realizou com ela.

Pablo Bazarello – Olá, Daniela. Primeiramente, gostaria de parabenizá-la pelo filme. Me chamou atenção a proposta e a forma como conseguiu concretizá-la. Minha primeira pergunta é de onde surgiu a ideia de fazer um filme nestes moldes, com estes personagens e sobre este assunto?

Daniela Thomas: Primeiramente: que bom que você gostou!

O Banquete é um filme que trata de alguns desejos meus relacionados ao cinema.  Primeiro de tudo, o meu fascínio por atores, com o engajamento que eles podem trazer para um papel, com o quanto eles conseguem estar “presentes” na cena. Sempre desejei criar uma situação para ver atores incríveis roubarem o filme ou a peça de mim. Que nem nos filmes do Cassavettes, sabe? No Banquete eu realizei esse sonho. Fiz um filme grudado no rosto dos atores, que estavam inteiramente tomados por seus personagens.

Outra obsessão: verossimilhança. Aqui ela tomou a forma do diálogo. Queria ouvir os personagens falando na tela exatamente como as pessoas falam em volta das centenas de mesas, dos mesões da madrugada, das salinhas e salões que eu tive o privilégio de conhecer desde pequena.

Escrever O Banquete foi um exercício de recriar as conversas, o tom despretensioso de gente que, fora das quatro paredes, fazia a diferença na cultura, na política do país, mas que ali, protegida pela amizade, pelo álcool e privacidade, não se importava em ser vulgar, rasteira, despretensiosa.



E finalmente, a memória da primeira vez que li o texto clássico de Platão, O Banquete, e me dei conta que a filosofia nasceu entre crises de ciúmes e rusgas amorosas dos filósofos gregos.  Inesquecível revelação.

  

Aproveite para assistir:



PB – Voltando um pouco para a pergunta anterior, mas saindo do roteiro para a direção. Gostaria de saber quais em sua opinião são os prós e os contras de se realizar uma obra passada inteira em um único ambiente, com um grupo grande de atores, muito diálogo, se assemelhando verdadeiramente a uma peça de teatro?

DT: Todo projeto cinematográfico é um desafio. São muitas variáveis, infinitas decisões até que um projeto saia da imaginação e vire um objeto que se pode mostrar. O Banquete segue uma tradição de filmes feitos em uma só locação, que tem no ROPE de Hitchcock e no ANJO ESTERMINADOR de Buñuel, seus mais notáveis representantes. Não é um formato original, portanto, mas o desejo aqui era desafiar-me e aos atores a manter a atenção do público unicamente pela força dos diálogos e das atitudes dos personagens. Eu acho que conseguimos.



Filmar foi uma experiência extraordinária. Planos sequência de quase uma hora, sem intervalos, sem correções. A câmera em constante movimento de Inti Briones, poderia focar qualquer um dos atores, a qualquer momento. No fundo da sala, um espelho de fora a fora, não permitia a qualquer um deles a mínima desconcentração: intensidade máxima.

Combinamos que o foco central da narrativa estaria nas expressões reativas dos personagens e não nas falas, como é comum. Filmamos com cuidado os silêncios, os olhares críticos, as risadas. Dessa maneira, as nuances das performances puderam sobressair, acredito.

Um amigo nos presenteou com algumas caixas de vinho e garrafas de uísque, e experimentamos fazer as cenas – em alguns dos doze dias de filmagem – com os atores bebendo o que os personagens bebiam. Foi uma experiência fascinante e vai ficar para sempre registrada na tela. Difícil saber – dos momentos que acabaram no filme – o que é bebedeira de verdade, o que é bebedeira atuada, o que já diz muito sobre o grau de entrega dos atores.

PB – Seu filme anterior, Vazante, gerou certa controvérsia – imagino que indesejada. Você acha que esse tipo de coisa atrapalha o desempenho de um filme ou acaba chamando mais atenção para ele, se tornando algo positivo? 

DT: Eu tenho muita dificuldade com o momento do lançamento dos filmes, não tenho domínio algum sobre como e o que fazer para atingir o público do filme. O que aconteceu com Vazante e com Banquete, não foi de forma alguma planejado por mim para chegar a algum efeito de propaganda. Não sei se controvérsia é boa ou não. Gostaria que os filmes chegassem as pessoas por seus méritos, não por algum artifício de promoção.



PB – Em relação ao tópico da polêmica. Existiu preocupação da sua parte sobre a recepção deste novo projeto? Ou foi algo que você decidiu abraçar? 

DT: Acho que essa resposta já está contida na resposta anterior, né?

PB  – Gostaria de saber como você vê o cenário atual da indústria cinematográfica brasileira. E por que ainda não existe uma área comum para público e crítica em nosso cinema? 

DT: Estamos vivendo um ritual de passagem do cinema para as multi-telas on demand, não só aqui, mas em todo o mundo, que me deixa atordoada e angustiada. Sou filha e fã da tela grande e já me sinto meio órfã dela. Tudo caminha para a máxima conveniência do espectador e os cinemas seguem transformando-se em lugares para se ver exclusivamente cenas elaboradas de ação de super heróis, com sons altíssimos e retumbantes. Para mim é uma tristeza.

Por outro lado, o que se conseguiu com as leis que obrigam as poderosas majors a produzir programação original no Brasil, está mudando a paisagem da nossa indústria audiovisual e isso é extraordinário. Estamos formando uma multidão de artistas e técnicos de cinema numa velocidade atordoante.


PB – Gostaria que você falasse um pouco sobre seus próximos projetos.

DT: Durante a Mostra de São Paulo, vocês vão poder ver meu mais recente filme, DE VOLTA, um curta que faz parte de um longa chamado ‘HALF THE SKY”, produzido por um dos meus cineastas favoritos, o Jia Zhang Ke. É um filme só de mulheres diretoras. Te espero lá.

Tenho, como sempre, muitos projetos nas minhas gavetas, na minha cabeça, em processo de desenvolvimento. E, além de cineasta, sou designer de exposições, arrisco algumas curadorias, faço cenários de teatro. Só nesse mês de outubro inauguro alguns projetos: duas exposições da obra do meu pai, o Ziraldo, uma no Sesc Interlagos, outra na abertura da Casa Melhoramentos, e com meu marido e parceiro Felipe Tassara, o design do espaço para a VR da Laurie Anderson durante a Mostra de São Paulo, no Cine Sesc e a curadoria da exposição ESTUFA durante o proximo SPFW. Ufa!

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