Entrevista – Por que ‘Adeus, June’ levou Kate Winslet à sua estreia na direção [EXCLUSIVO]

DestaqueEntrevista - Por que ‘Adeus, June’ levou Kate Winslet à sua estreia na direção

Kate Winslet não planejava dirigir seu primeiro longa-metragem. A decisão nasceu não de um cálculo de carreira, mas de uma recusa íntima em se afastar do projeto. “Quando percebi que não queria entregar o filme a outro diretor, tive uma reação muito forte”, contou ao CinePOP, em entrevista exclusiva por Zoom. “Eu simplesmente não queria deixar o filme. E então pensei: ‘eu posso dirigi-lo’.”

Na tela, Winslet parecia estar em casa — cortinas com estampa em zigue-zague e um sofá colorido ao fundo. Nada lembrava o neutro impessoal de um quarto de hotel ou de um estúdio. Apesar do ambiente informal, a atriz foi precisa ao descrever o caminho que a levou a assumir a direção de Adeus, June (Goodbye June), lançado em 24 de dezembro na Netflix — um drama familiar centrado nos últimos dias de vida de uma matriarca cercada pelos filhos e netos.

Kate Winslet em entrevista com Letícia Alassë sobre ‘Adeus, June’ (Foto: reprodução)

Um roteiro precoce e raro

O projeto tem origem doméstica. O roteiro foi escrito por Joe Anders, filho mais novo de Winslet com o cineasta Sam Mendes (1917). No filme, ele assina sem os sobrenomes dos pais — escolha semelhante à da irmã, a atriz Mia Threapleton (O Esquema Fenício), que também optou pelo nome artístico do pai, menos conhecido.

Winslet lembra com clareza da primeira leitura. “Fiquei completamente tomada pelos personagens e pelo diálogo. Era tudo muito real.” O que mais a impressionou foi a naturalidade das falas. “É o tipo de diálogo que você não encontra com frequência, mesmo depois de tantos anos como atriz.

Joe Anders e Kate Winslet participam da estreia mundial do filme “Goodbye June”, da Netflix, no Curzon Mayfair, em 3 de dezembro de 2025, em Londres, Inglaterra. (Foto de StillMoving.Net para a Netflix)
Joe Anders e Kate Winslet participam da estreia mundial do filme “Goodbye June”, da Netflix, no Curzon Mayfair, em 3 de dezembro de 2025, em Londres, Inglaterra. (Foto de StillMoving.Net)

Joe, entretanto, resistiu à ideia de transformar o texto em filme. “Ele achou que eu estava louca”, contou ela, rindo. “Disse: ‘Mãe, não precisa ser um filme. Eu só estou aprendendo a fazer isso’.” Winslet insistiu para que o filho concluísse o roteiro. Quando ele voltou com as páginas finais, algo se cristalizou para ela. “Eu conseguia ver que aquilo poderia ser especial.

O ponto de virada

Após cerca de um ano de desenvolvimento, o projeto atraiu o interesse da Netflix. Winslet entraria como produtora e atriz — interpreta Julia, uma das filhas da matriarca que dá título ao filme e que funciona como eixo emocional entre os irmãos, cada um atravessando seus próprios dilemas de parentalidade, relacionamento e trabalho. A direção, inicialmente, seria entregue a outro nome. Foi nesse momento que a resistência de Winslet em se afastar do projeto se impôs.

Eu estava prestes a mandar o roteiro para outros diretores quando tive essa reação emocional muito forte.” Ainda assim, ela faz questão de afastar a ideia de um gesto irrefletido. “Eu nunca teria feito isso se não sentisse que era o momento certo da minha vida. E também não teria feito se não me sentisse pronta.

Andrea Riseborough, Toni Collette, Kate Winslet, Johnny Flynn, Timothy Spall e Fisayo Akinade participam da estreia mundial de “Goodbye June”, da Netflix, no Curzon Mayfair, em 3 de dezembro de 2025, em Londres, Inglaterra. (Foto de StillMoving.Net)
Andrea Riseborough, Toni Collette, Kate Winslet, Johnny Flynn, Timothy Spall e Fisayo Akinade participam da estreia mundial de “Goodbye June”, da Netflix, no Curzon Mayfair, em 3 de dezembro de 2025, em Londres, Inglaterra. (Foto de StillMoving.Net)

Depois de mais de três décadas diante das câmeras — período que inclui o Oscar de Melhor Atriz por O Leitor (2008) —, Winslet sentiu que a experiência acumulada finalmente se reorganizava. “Cresci praticamente em sets de filmagem”, disse ela.

Casada durante sete anos com Sam Mendes, com quem trabalhou em Foi Apenas um Sonho (2008), e dirigida por cineastas como Peter Jackson (Almas Gêmeas), Ang Lee (Razão e Sensibilidade), Stephen Daldry (O Leitor) e James Cameron (Titanic), Winslet teve uma formação informal privilegiada — um longo aprendizado por observação.

Ficção, memória e o Natal

Embora profundamente íntimo, Adeus, June é uma obra de ficção. Joe se inspirou na morte da avó — mãe de Winslet — em 2017, quando ainda era adolescente. “Meu filho perdeu a avó muito jovem e ficou profundamente marcado pela forma como, como família, conseguimos transformar aquela despedida em algo bonito”. O roteiro, no entanto, não reproduz essa experiência.

Ele sabia que essa não é a realidade para todo mundo. Para muitas famílias, esses momentos são extremamente complicados. Por isso, criou uma família completamente fictícia.”

Para Winslet, a ambientação no Natal foi uma escolha acertada. “Achei absolutamente brilhante situar a história nesse período, porque você sente o tempo correndo — os dias passando — enquanto todos se preparam para um grande evento.” No filme, a celebração e a perda coexistem.

Construir calor em um espaço frio

Como diretora, Winslet se preocupou em transformar o hospital — cenário central da narrativa — em um espaço emocionalmente habitável. “Hospitais podem ser lugares frios, solitários, com luzes duras. Isso não combinava com a história que estávamos contando.

Elementos natalinos ajudam a construir esse acolhimento visual. “As luzes, a árvore, pequenos detalhes tornam o espaço mais quente, mais confortável.” A decisão está ligada à personagem June, a mãe à beira da morte. “Ela ama profundamente a família e não quer deixá-los. Era importante que o filme refletisse isso visualmente.

Kate Winslet em entrevista sobre ‘Adeus, June’ ao CinePOP (Foto: reprodução)

Nem sempre, porém, o afeto visual encontra eco na densidade dramática. Alguns conflitos permanecem na superfície, e certas insinuações parecem hesitar diante da dor da perda. A juventude do roteirista se faz sentir nessas escolhas, mesmo sob a tutela atenta da mãe-diretora.

Da atuação à direção

Mesmo sem tempo para aprofundar esse aspecto durante a entrevista, Adeus, June revela uma diretora moldada pela observação. A confiança depositada nos atores — como Toni Collette e Helen Mirren — aponta para uma encenação que privilegia diálogos e atuações diretas, com pouco espaço para silêncios prolongados ou submersões emocionais. Winslet parece menos interessada em impor uma marca autoral do que em sustentar cenas acessíveis, ancoradas na escuta e no jogo coletivo.

O ano de 2025 tem sido marcado por atrizes e atores que transformaram anos de observação em gesto autoral. Scarlett Johansson (Eleanor the Great), Kristen Stewart (A Cronologia da Água), Eva Victor (Sorry, Baby) e Harris Dickinson (Urchin – Pelas Ruas de Londres) assumiram a câmera como forma de afirmação estética — e, em alguns casos, também política.

Johnny Flynn, Andrea Riseborough, Timothy Spall, Kate Winslet e Fisayo Akinade em ‘Adeus, June’. (Crédito: Kimberley French/Netflix © 2025.)

Winslet segue outro caminho. Adeus, June não busca ruptura, mas acolhimento. Há algo de profundamente materno — no melhor sentido — em sua estreia como diretora: menos sobre impor uma visão e mais sobre cuidar de um espaço comum, onde os conflitos podem existir sem a necessidade de confronto explícito.

Ao fim da conversa, perguntada se pretende continuar dirigindo, Winslet respondeu sem hesitar: “Sim, eu espero que sim.” Depois de décadas quebrando padrões diante das câmeras, Adeus, June não soa como ponto de chegada, mas como um primeiro passo — ainda cauteloso, ainda tímido — de uma artista que começa a se deslocar, com atenção e cuidado, para trás das lentes.

Veja a entrevista completa no YouTube:

 

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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