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Femme Fatale | Relembrando o famoso 7º álbum de estúdio de Britney Spears


Em uma aparente reconquista dos atributos que a colocaram no topo do mundo, Britney Spears parecia finalmente ter se reencontrado consigo mesma depois de um meltdown causado pela mídia. Com o lançamento de ‘Blackout’ em 2007 e a consecutiva divulgação de Circus dois anos mais tarde, a princesa da música demonstrou um grande apreço pelo gênero pop que explorara no início de sua carreira e aproveitou para acompanhar as tendências que cintilavam na cultura mainstream – abraçando incursões o electro-pop, o synth-pop e o EDM, aglutinando-os em explosivas iterações que caíram no gosto da crítica e do público e reafirmando seu importante status na indústria fonográfica.

Em janeiro de 2011, Spears começou a divulgar seu próximo trabalho, intitulado Femme Fatale. O evocativo título, digno de uma diva que carrega uma coroa tão marcada quanto esta, já preparava os fãs para uma aventura regada a sensualidade, a letras românticas e a uma melancólica tristeza que tomava conta de suas músicas há algum tempo. A diferença é que, com este sétimo álbum de estúdio, Britney soube brincar com os estilos e não entregar o óbvio em termos artísticos – mesmo que algumas investidas não tenham funcionado. O resultado, ainda que inferior a tudo que a cantora havia nos entregue até então, se mantém dançante o suficiente para nos esquecermos dos problemas.



À época de seu lançamento, Femme Fatale chamou a atenção da crítica pela exuberância de cada faixas e pelo modo como inúmeras expressões instrumentais se fundiram em um microcosmos de puro experimentalismo, um passo a mais em direção à “arte pela arte”, por assim dizer – mas notaram a fraca inspiração dos versos, que nem mesmo a permitiu assinar qualquer uma das canções (com exceção de “Scary”, que não entrou para a versão padrão do disco). Dito isso, é preciso comentar a competência Max Martin, Dr. Luke e Lukasz Gottwald, colaboradores frequentes de Spears, que fizeram o máximo para ao menos tentar arquitetar certo laço dialógico entre as tracks e arrancar sucessos mercadológicos – objetivo que alcançaram com maestria.

O lead single da nova era de Britney ganhou vida através do dance-pop de “Hold It Against Me”. Apesar da multiplicidade gritante de elementos sonoros que se desenrolam pela faixa, tudo é pensado com cautela e, no final das contas, converge para uma significativa mudança de ares para a artista. É claro que o pop chiclete permanece vivo tanto nos drills quanto no refrão e no icônico bridge que nos une a um épico final – exponencialmente alimentado por um belíssimo videoclipe encabeçado por Jonas Åkerlund (realizador que trabalhou com Lady Gaga e Madonna, por exemplo). Em termos líricos, não se vê muita originalidade; pelo contrário, temos a exaltação de um amor carnal e das fases que o acompanham – mas isso não importa: somos engolfados em uma atmosfera arrepiante que nos faz querer dançar até que o mundo acabe.

O trocadilho aqui é gancho para o segundo single do álbum, que obteve a raridade de se equivaler ao seu predecessor: “Till the World Ends”, funcionando como uma epígrafe electro-dance, é uma narcótica viagem por um submundo pós-apocalíptico impetuoso, movido pelo desejo incontrolável de dançar e de não se importar com os problemas que nos afetam dia após dia. “Você sabe que posso levar isso ao próximo nível, baby” é um clássico verso arrancado de uma nostalgia que retoma Britney e ‘In The Zone’ – mas elevado à décima potência no tocante à contemporaneidade e a uma proposital produção sem limites estéticos. Da mesma maneira, Britney demonstra seu divertimento na controversa “I Wanna Go”, recuperando os hinos de libertação que despertara anos atrás.

À medida que várias das músicas nos chamam a atenção e nos guiam por essa nova jornada da princesa do pop, outras falham em cumprir com o que pretendem e parecem nem mesmo saber de que maneira fazer isso. O principal obstáculo que enfrentam é a edição e a incapacidade de perceberam o próprio exagero – e aqui cito as distorções desnecessárias de “He About to Lose Me” ou o flerte equivocado do house com “Big Fat Bass” (uma inexplicável conjunção de Britney com will.i.am, do grupo Black Eyed Peas). Outras recorrem a um empírico desbravamento que poderia ser mais bem resguardado, como a sutileza urgente de “Gasoline” ou o saudoso pop-rock da subestimada “Don’t Keep Me Waiting”, que merecia um espaço de maior destaque no disco. “Selfish” é outra das tracks que foi erroneamente deixada de lado, visto que é uma das melhores entradas de Femme Fatale, seja pela familiaridade de sua progressão, seja pelas mensagens subliminares que se escondem em seus versos.

É quase irrelevante comentar a beleza irretocável de “Criminal”, semi-balada que, na versão padrão do álbum, finaliza essa jornada com toque de ouro. A narrativa se afasta dos convencionalismos imortalizados por Spears ao longo da carreira e traz Martin de volta à forma; talvez o aspecto que mais nos chame a atenção seja o fato da iteração não ser tão agressiva quanto suas conterrâneas e refletir a vulnerabilidade que tanto amamos na cantora.

Femme Fatale sofre de males que vinham despontando no cenário mainstream desde o final dos anos 2000 – a demanda pela qual Britney Spears se sente obrigada a cumprir: provar que consegue se manter à frente de uma violenta indústria sem ser apagada por novos artísticas (ou seja, algo que ela não percebe que não precisa fazer).

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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