A região do Pantanal está nos noticiários do mundo inteiro devido aos inúmeros e incontroláveis incêndios que estão destruindo a fauna e a flora local. Embora a maior parte dessa região se concentre em território brasileiro, há também uma grande área que pega parte do norte da Argentina, na região de Missiones – local onde se passa ‘O Silêncio do Caçador’, longa argentino em competição no 48º Festival de Gramado 2020.

Ismael Guzmán (Pablo Echarri) é um ferrenho guarda florestal de Missiones, que luta quase que sozinho para combater o desmatamento, o tráfico de animais e a caçada ilegal na província. Esse quadro se agrava ainda mais porque Orlando Venneck (Alberto Ammann), conhecido como Polaco, se acha acima da lei, e, portanto, entende-se como no direito de fazer o que quer, dentro ou fora da sua fazenda, até porque é o sujeito mais rico e influente da região, e ninguém quer mexer com sua família. Ninguém, exceto Guzmán.


O trio principal do elenco imprime a angústia e a impotência a seus personagens, características corriqueiras dentre aqueles que se veem num ambiente de disputa de poder e, ao mesmo tempo, isolados das capitais cosmopolitas. Ao criar um triângulo composto por um guarda ambiental, um filho de coronel e uma jovem médica (Mora Recalde), o argumento do longa se apropria desses três elementos essenciais da dinâmica ambiental para ilustrar a profunda complexidade da disputa pelo poder na zona da mata, e o quanto tudo isso ainda é reflexos da partilha das capitanias hereditárias.

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É muito louco pensar nisso, mas, de fato: a disputa pelo poder nas regiões florestais realmente são dignas de mirabolantes tramas de suspense, desses que nos deixam sem respiração, uma vez que as histórias parecem potencialmente reais, como em ‘O Silêncio do Caçador’. Assim, o roteiro de Francisco Kosterlitz consegue dosar bem a pegada do thriller com a reflexão da pauta ambiental, misturando uma pegada shakespeariana de disputa entre a família rica X família pobre, envolvendo uma bela donzela em jogo, num ritmo crescente alucinante que desponta a tragédia anunciada.

Com um projeto ambicioso – uma vez que filmar em floresta é uma das coisas menos recomendadas em qualquer escola de cinema – o diretor Martín De Salvo alcança um bom retrato da hercúlea realidade daqueles que tentam, a todo custo, proteger as florestas nesses locais isolados onde a lei parece não alcançar. Com gravações dentro da floresta, o jogo de câmera oculta entre as árvores foi uma acertada decisão para ajudar a ambientar o espectador dentro do universo solitário e claustrofóbico da selva.

Ao jogar luz no urgente debate sobre o descontrole e o coronelismo vigente nas zonas inóspitas das cidades florestais, ‘O Silêncio do Caçador’ se apresenta como um bom thriller ambiental, elevando o nível da competição no Festival de Gramado, posto que o drama do Pantanal se tornou gritante na vida real. É impossível permanecer impassível nesse debate, e ‘O Silêncio do Caçador’ faz a gente pensar que o agro, afinal, não é pop. E muito menos é tudo.

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