Festival de Sundance 2026 | Crítica: Extra Geography é um raio X da adolescência feminina com gostinho de humor britânico

Extra Geography não é sua tradicional dramédia coming of age, onde os dissabores da adolescência são ancorados na preciosidade de ser jovem e despreocupado. No longa britânico de Molly Manners, Sonhos de uma Noite de Verão frui para além das páginas de um centenário livro para provar que nem a contemporaneidade, tão pouco a modernidade fogem das regras dramáticas ditadas por Shakespeare séculos atrás.

Em um internato alocado em um histórico castelo cercado por vales e árvores frondosas, a amizade de Minna e Flic é posta à prova. Em meados dos anos 90, nesta escola apenas para meninas, duas mentes ardilosas e brilhantes se digladiam entre a inveja juvenil e a paixão a flor da pele – seja ela pela obsessiva perfeição acadêmica, seja ela pela libertação de seus impulsos carnais desenfreados. Nessa dinâmica em que a irmandade está sempre à beira de seu colapso, essas adolescentes caminham pelos corredores antigos em busca do que tragar como trabalho de fim de ano letivo. E dessa vez, a ideia é se apaixonar abruptamente como em Sonhos de uma Noite de Verão.

Em um clássico “a vida imita a ficção”, Manners estreia na direção de longas com uma comédia dramática deliciosa sobre descobertas, amadurecimento e o privilégio de viver de maneira descuidada sem as consequências necessárias. Com um humor leve que explora a ignorância e rebeldia da adolescência, Extra Geography celebra Shakespeare enquanto faz um paralelo com suas histórias e a sua destreza em analisar o comportamento humano para além das limitações temporais.

Com personagens que quase instantaneamente nos fisgam pelas ricas performances das novatas Marni Duggan e Galaxie Clear, a produção é uma aventura pelas escolhas erradas alheia. Um quase estudo de caso, o longa ainda explora a latente necessidade de aceitação e validação nessa faixa etária da vida. E com seu senso de humor britânico sendo um de seus grandes trunfos, a roteirista Miriam Battye traz a mesma destreza ácida explorada em Succession para essa história que está longe de ser uma fábula cor-de-rosa sobre amizade. Mais sombria do que inicialmente se espera, Extra Geography é um mapa detalhado sobre a adolescência feminina, suas rivalidades e imaturidades.

Trabalhando o tempo de tela de forma excelente, a diretora Molly Manners sabe honrar o roteiro de Battye, trabalhando a evolução de suas personagens com constância, fortalecendo a narrativa sem deixá-la enfadonha ou exaustiva. E assim o faz enquanto embebeda sua história com a apaixonanre atmosfera estética da antiga Inglaterra, que garante ao longa não apenas um design de produção belíssimo, mas um excelente adendo aos paralelos feitos entre a trama e as obras de Shakespeare.

Brincando com o texto original do lendário dramaturgo, o longa foge do escopo de uma releitura, como já vimos em filmes como 10 Coisas que Odeio em Você, para de fato salientar a atemporalidade das obras de Shakespeare. Agridoce, peculiar a sua maneira e realmente divertido, Extra Geography é um filme perfeito para o Festival de Sundance e celebra a qualidade do cinema britânico em todas as suas faces – nos lembrando que arte e vida sempre se misturam em alguma intersecção.

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