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Glory | Relembrando o SUBESTIMADO álbum de Britney Spears, que completa 9 anos


Dezessete anos e oito álbuns depois de sua estreia no mundo da música, Britney Spears viria a entregar a última obra de sua carreira (ao menos por ora). Depois do fracasso crítico e comercial de ‘Britney Jean’, uma investida que tentou canalizar o EDM em um experimentalismo complexo e excessivo, a princesa do pop resolveu voltar ao final da década de 1990 e começo da de 2000 para começar a pensar em sua próxima era. Começando bem cedo a trabalhar em mais um compilado de originais, levou três anos para que a cantora e compositora escolhesse os nomes certos para lhe acompanharem nessa mais nova jornada – que ficaria conhecida como Glory.

Era apenas natural que o público ficasse com um pé atrás depois de se decepcionar com o frustrante resultado do disco predecessor – que, por mais que tivesse seu coração no lugar correto, falhou em criar uma identidade que remetesse a qualquer estilo de Britney da última década. Entretanto, as coisas pareciam caminhar bem: a performer renovou seu contrato com a RCA Records e não trabalhou sob a pressão de um prazo, podendo tirar o tempo necessário para se concentrar na música. Com o lançamento do divertido lead single “Make Me…” em julho de 2016, aliando-se ao rapper G-Eazy e ao conhecido produtor e compositor Burns, os fãs foram à loucura ao perceber que a icônica popstar estava pronta para voltar à forma.



O texto em questão resolveu escolher a edição deluxe para ser analisada, pelo motivo de trazer nada menos que oito faixas adicionais que foram descartadas da versão padrão e que merecem nossa atenção – mas preciso mencionar que a versão padrão é a aniversariante do dia. E, ao tirarmos um tempo para prestar nas narrativas que se desenrolam e no cuidado primoroso da construção fonográfica, percebemos que Glory é grandioso dentro das mensagens que pretende evocar, guiado por uma simplicidade apaixonante que não se desespera em qualquer momento e que revela um lado mais íntimo e pessoal de Spears (algo que não víamos desde o justificável discurso enraivecido e cínico de ‘Blackout’, que se consagrou como uma resposta pungente ao narcisismo midiático dos paparazzi). De fato, é aqui que a artista demonstra uma confiança invejável e um amadurecimento que remonta aos tempos de ‘In The Zone’, mantendo-se fiel a uma sensualidade envolvente e a uma ambiguidade lírica que nos faz clamar por mais.

Há uma quantidade sólida de faixas muito boas dentro do espectro comedido do álbum: “Make Me…” flerta com o mid-tempo do electro-pop e do R&B e usa todas as fórmulas conhecidas a seu favor, incluindo o enredo romântico, as batidas sintéticas e um refrão sonoro acompanhado apenas das palavras titulares. Porém, é “Slumber Party” quem rouba os holofotes; produzida pela dupla sueca Mattman & Robin, a track se afasta dos elementos explorados nem Glory e permite que uma espécie diferente de reggae-pop venha à superfície, pincelado com a química estonteante entre Britney e Tinashe e com a presença inesperada de marimbas e trompetes.

Além das incursões instrumentais, são as rendições vocais de Spears que nos chamam a atenção, principalmente por se afastarem do desmedido uso de autotune visto em ‘Britney Jean’ e até em ‘Femme Fatale’ e ‘Circus’. As afetações são escolhidas a dedo e com um interessante propósito que retoma as tentativas conceituais do início dos anos 2010 e investe um tempo categórico para que elas funcionem – como vemos na ecoante e onírica abertura de “Invitation” e no deep-pop da memorável “Do You Wanna Come Over?” (cuja mistura de estilos é divertida e cumpre com as expectativas premeditadas). Num escopo similar, temos as modulações reverberantes de “Clumsy”, “Change Your Mind (No Seas Cortes)” e “Hard To Forget Ya”, essa última pegando elementos bastante familiares elevados à décima potência.

Nem todas as iterações funcionam, como é o caso da repetição cansativa de “Just Like Me”. A música, localizada na transição do primeiro para o segundo ato, talvez tenha sido colocada no lugar errado: ela se inicia com estalos de dedo e a melodia reconhecível do violão, ambos os toques sendo deixados de lado em prol de um pré-refrão e um refrão exaustivo que repete constantemente o título (algo que não funciona por ser reminiscência do lead single, por exemplo). “Private Show” também tropeça nos mesmos obstáculos, não tendo ideia do que fazer com o doo-wop de que se vale ou de como se aliar à teatralidade em demasia de Spears. Enquanto isso, “If I’m Dancing” funciona como um rip-off do R&B absorvido por Beyoncé em ‘4’, e “Coupure Électrique”, ainda que acerte no experimentalismo sonoro, erra na escolha de se posar dentro de um pseudo-francês inexplicável.

É quase irônico ver que são as faixas-bônus da versão deluxe que incrementam a produção – e só temos a agradecer à performer por ter nos presenteado com elas. “Liar” alimenta um electro-country-pop regado a versos muito bem pensados; “Mood Ring”, encabeçado por Dijon McFarlane, é um electro-R&B que faz ótimo uso dos aspectos de que se dispõe; e, fechando com chave de ouro, temos a cândida exuberância reflexiva de “Swimming in the Stars” (uma das melhores canções da carreira de Britney) e a colaboração viciante de “Matches”, executada junto ao lendário grupo Backstreet Boys.

Glory marca o retorno da princesa do pop à forma – e não poderíamos estar mais felizes. Apesar que já faça cinco anos desde seu último respiro artístico na indústria fonográfica, sabemos que ela enfrentou um longo processo de libertação da família e de seus produtores, mas, quando decidir voltar, esperamos que trilhe um caminho parecido com este (que conseguiu mostrar Britney como Britney como nunca).

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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