A dificuldade de convencer o público a sair de casa e voltar às salas de cinema se tornou uma das maiores preocupações da indústria desde a pandemia. Enquanto Hollywood aposta cada vez mais em sequências, universos compartilhados, remakes e propriedades conhecidas para diminuir os riscos, Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, acredita que o futuro do cinema depende justamente de uma disposição maior para arriscar.
Em entrevista exclusiva ao CinePOP, Ilda falou sobre as mudanças no comportamento do público, a força dos blockbusters e, principalmente, sobre o perigo de transformar as franquias na única resposta possível para a crise enfrentada pelas salas.
Para ela, uma das grandes questões do mercado atualmente é entender exatamente o que faz uma pessoa deixar o conforto de casa, onde já encontra uma quantidade gigantesca de filmes e séries, para pagar um ingresso.
“Você está me fazendo a pergunta dos muitos milhões de dólares. Porque eu acho que o que aconteceu depois do fenômeno da pandemia é que nós todos, e aí é o mercado e a indústria como um todo, estamos procurando entender o que faz o público sair de casa. O que existe de especial em um filme que é capaz de tirar você de dentro de casa.”
Segundo Ilda, o espectador passou a exigir uma espécie de garantia de que aquela experiência realmente valerá o dinheiro e, talvez ainda mais importante, o tempo investido.
“O público quer sair de casa para alguma coisa em que ele tenha confiança de que o dinheiro dele vai ser bem gasto, que o tempo dele vai ser bem gasto. Porque hoje ele tem acesso a um volume de filmes e séries que estão ali dentro da casa dele. Então, para sair de casa, tem que ser alguma coisa especial. Especial pelo que ele vai ver ou especial pela experiência que ele vai ter.”
É justamente nesse cenário que as grandes franquias ganharam ainda mais importância. Marvel, DC, Avatar, Jurassic World, Missão: Impossível, Star Wars e tantas outras propriedades conhecidas entregam ao espectador uma promessa muito clara do que encontrará ao comprar o ingresso.

Ilda reconhece essa força e não demoniza os blockbusters. Pelo contrário, diz gostar quando um grande lançamento consegue lotar novamente as salas.
“As franquias, os blockbusters, são para esse público uma garantia de algo. Pode até ser que ele não goste do filme, mas existe uma garantia.”
O problema surge quando a indústria começa a acreditar que esse é o único caminho possível.
Para a diretora do Festival do Rio, os próprios festivais têm um papel fundamental na criação de novos interesses no espectador. É neles que o público pode descobrir cinematografias, diretores e gêneros que talvez jamais escolhesse espontaneamente em uma programação convencional.
“Os festivais podem fazer, e isso é muito importante, não só o Festival do Rio, mas os festivais em todas as cidades, é pensar no público. Eu penso no filme, mas penso também no público. Penso em como o público vai ter acesso a filmes que provavelmente não seriam a primeira escolha deles, mas que, uma vez que eles vejam, eles dizem: ‘Peraí, eu já vi um filme desse país e foi legal. Vou lá ver, vou conferir’.”
Para Ilda, existe inclusive uma percepção equivocada dentro da própria indústria sobre a disposição do espectador em experimentar coisas novas.
“O público é muito curioso. Eu acho que o mercado esquece que o público é muito mais curioso e muito mais corajoso nas escolhas do que aquilo que é apresentado para ele.”
E foi justamente nesse ponto que ela fez uma das declarações mais fortes da conversa com o CinePOP.
“É claro que, para quem trabalha dentro da indústria, todo mundo quer estar num lugar de segurança financeira. Não quer se arriscar muito. Mas hoje, se você não se arrisca, você certamente não aumenta a capacidade do seu negócio durar.”
Para Ilda, a discussão precisa deixar de considerar apenas o resultado imediato de uma produção e começar a olhar para a própria sobrevivência do cinema nas próximas décadas.
“Eu não estou mais falando só de agora. Estou falando de alguma coisa muito além do festival. O que garante o negócio? O que garante que esse negócio vai existir daqui a dez anos, vinte anos? E claro que o cinema vai existir. Não são as franquias. Mesmo para as grandes empresas, as franquias são momentos de grande ganho financeiro, mas elas não podem ser as únicas. Então todo mundo tem que ir testando e arriscando coisas.”
A declaração chega em um momento especialmente interessante para Hollywood. Nos últimos anos, os estúdios passaram a recorrer cada vez mais a marcas reconhecidas, continuações tardias, adaptações e refilmagens como maneira de diminuir a imprevisibilidade das bilheterias.
Para a diretora, porém, histórias originais continuam tendo espaço. O desafio está em fazer o público descobrir que elas existem.
“Eu acho que o público está aberto a histórias novas. Eu só acho que a gente tem que ter uma capacidade de vender esses filmes. Vender no sentido de dizer: ‘Olha, vale a pena’. Esse é um exercício que a gente faz no festival.”
Ela conta que essa discussão acontece constantemente dentro da própria equipe.
“Eu sempre faço com a minha equipe: esse filme é ótimo, quatro pessoas viram e adoraram o filme. Como é que a gente vende isso? Eu tenho um filme maravilhoso de um país desconhecido. A gente sabe que é maravilhoso. Como a gente vende? Quais são os instrumentos que a gente tem para comunicar a qualidade desse filme?”
Ilda também aposta especialmente no público jovem como peça fundamental para a continuidade da experiência cinematográfica.
“O jovem não quer só ver o filme. Ele quer sair com os amigos, quer se encontrar, quer namorar, quer ter uma experiência completa. Como a gente quer ter no cinema. Eu quero sair, ir ao cinema, depois sair para jantar, falar sobre o filme. Então os jovens são, na verdade, nossos grandes aliados para que a gente mantenha o cinema vivo.”
No fim, a mensagem de Ilda Santiago passa menos por uma guerra entre blockbusters e cinema autoral e muito mais pela necessidade de ampliar as opções oferecidas ao público.
Porque, para ela, o espectador talvez esteja disposto a se arriscar muito mais do que Hollywood imagina.


