‘Mapago’: Marcus Teles leva a cultura do povo Gató ao Bonito CineSUR e revela próximo projeto

Depois de conquistar o Prêmio Uno Mato de Melhor Filme produzido entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul na 23ª edição do Festival de Cinema de Cuiabá (Cinemato), o curta Mapago segue sua trajetória pelos festivais brasileiros e integra a programação do Bonito CineSUR.

Em entrevista ao CinePOP, o diretor Marcus Teles contou como a produção nasceu de encontros, pesquisas e da aproximação com o povo indígena Gató, resultando em uma obra que mistura realismo fantástico, ancestralidade e resistência.

Natural de Coxim (MS), Marcus explica que a ideia do filme surgiu depois de concluir um mestrado em Cinema, em Portugal, onde pesquisou o realismo fantástico latino-americano.

“Quando voltei para o Brasil, já trabalhava com comunidades indígenas. Conheci a Gleice Nonato Gató, pedi alguns contos dela e ela começou a me contar sobre a relação da mulher Gató com a onça. Depois me apresentou a MC Serena e tudo o que ela vivia no processo de retomada da própria identidade. Na hora pensei: ‘isso dá um lindo filme’.”

Foi dessa conversa que nasceu Mapago.

Marcus Teles
Marcus Teles

 

Uma história construída a quatro mãos

O roteiro foi escrito em parceria com a escritora e atriz indígena Gleice Nonato Gató, responsável por trazer ao longa elementos da cosmovisão de seu povo.

Marcus explica que o objetivo nunca foi apenas contar uma história indígena, mas construir uma narrativa respeitando a forma como os próprios Gató enxergam o mundo.

“O roteiro foi escrito entre eu e a Gleice. Eu trouxe um pouco do realismo fantástico e ela trouxe a vivência Gató. A gente queria fazer um filme que dialogasse com esses saberes.”

A produção também destaca a forte ligação do povo Gató com a água. Não por acaso, eles são conhecidos como “os indígenas da água”, característica que atravessa toda a narrativa.

O diretor lembra ainda que Mapago significa “onça” na língua Gató, símbolo que representa diretamente a figura feminina dentro da comunidade.

A descoberta que mais surpreendeu

Durante a pesquisa, uma característica da organização social do povo Gató chamou a atenção do cineasta.

“A sociedade Gató é matriarcal. É a mulher quem lidera o convívio social. Eles não viviam aldeados, mas em núcleos familiares comandados pelas mulheres. Achei isso algo incrível.”

O elenco reúne nomes conhecidos do audiovisual sul-mato-grossense, como Fernando Cruz, além da participação especial de Suy Guarani, filha da ativista Marta Guarani, primeira indígena brasileira a discursar na ONU.

Receber o principal prêmio destinado às produções de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul justamente no Cinemato teve um peso especial para Marcus.

“O território Gató pertence tanto ao Mato Grosso quanto ao Mato Grosso do Sul. Então lançar o filme aqui tornou tudo ainda mais simbólico. Foi uma felicidade enorme.”

Depois da estreia em Cuiabá, Mapago chega ao Bonito CineSUR antes de seguir para novos festivais pelo país.

“A gente espera que o filme tenha um longo caminho e possa levar os saberes e as imagens do povo Gató para o Brasil inteiro.”

Cinema que nasce das conversas

Marcus afirma que seus filmes surgem muito mais do encontro com as pessoas do que de ideias previamente planejadas.

“Meu cinema nasce das conversas. O Mapago nasceu de um papo com a Gleice em um bar. Eu gosto de observar, ouvir e entender os lugares. É assim que as histórias aparecem.”

Essa abordagem também guia seu próximo projeto, que será falado integralmente em Guarani Kaiowá e acompanhará a trajetória do jovem ativista indígena LGBTQIAPN+ Galoi, além de resgatar a história de Tibira, considerada a primeira vítima documentada de LGBTfobia no Brasil colonial.

Onde assistir

Depois da exibição no Bonito CineSUR, Mapago continuará circulando por festivais nacionais.

Segundo Marcus Teles, a expectativa é que, após essa trajetória, o curta também seja disponibilizado em uma plataforma online ligada ao Festival Guarnicê, ampliando o acesso do público à produção.

Premiado logo em sua estreia, Mapago confirma a força do cinema produzido no Centro-Oeste e reforça a importância de narrativas construídas a partir das próprias vozes indígenas.

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Renato Marafon
Renato Marafonhttps://cinepop.com.br/
Editor-chefe e criador do site CinePOP, apaixonado por cinema e filmes.