Quem dera fossem as minhocas de Worms

É muito duro falar mal do cinema brasileiro. Só quem acompanha de perto sabe o quanto é difícil criar cinema no nosso país. A falta de infraestrutura e incentivo para uma arte produzida num país apenas com o apoio financeiro de seu governo basicamente (que já tem problemas demais em mãos) tem como resultado apenas apostar no seguro. Nada de arriscar com o inusitado ou diferente, afinal custa dinheiro (e muito).

Existem poucas tentativas de gêneros em nosso país. Aqui só emplacam comédias (com astros reconhecíeis da TV) e um ou outro filme de gêneros diferentes, vide Tropa de Elite e 2 Coelhos. Tudo isso para chegarmos até Minhocas, a primeira animação em stop motion nacional. Baseado num curta-metragem ganhador de prêmios, o filme é dirigido por Paolo Conti e Arthur Nunes, que também criaram a ideia original.

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É muito difícil e ruim falar mal de um filme tão inofensivo quanto Minhocas, mirado para um público muito novo, e recomendado apenas para eles. De vez em quando temos animações com teor um pouco mais adulto, que se beneficiam de piadas que só os pais entendem. Esse não é um caso destes. Os pais que forem levar seus filhos poderão correr o risco de ficar com tendinite de tanto olharem o relógio, mesmo a animação fazendo uso de apenas 82 minutos de projeção.

É difícil inclusive dizer sobre o que Minhocas trata. Mas vamos lá. Júnior é uma jovem minhoca que sonha um dia se tornar tão intrépido quanto seu herói Mister Jumping, sátira de Evel Knievel em versão minhoca. Um acidente o joga, junto com seu amigo Neco, numa espécie de submundo. O local é comandado por Big Wig, o vilão da trama. Ele é um inseto que deseja controlar todas as minhocas. Para isso, o vilão desenvolve um sistema de hipnose com transmissão pela TV, que transforma minhocas em zumbis.

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No percurso, nossos heróis conhecem Linda, uma minhoca órfã que vive nesse horrível território hostil como falta de opção, e se tornou uma sobrevivente. Mesmo sendo completamente inofensivo, Minhocas promete testar a paciência do público, digamos acima de 5 anos de idade. O filme é simplesmente bobinho demais, e talvez funcionasse melhor com um lançamento direto em vídeo, ou uma exibição na TV no sábado de manhã. Com o nível de animações que as crianças tem como oferta hoje em dia, vide Frozen (em breve em cartaz), é difícil acreditar que irão se contentar com Minhocas.

A técnica de animação em stop motion é uma arte quase perdida, e eu sou um de seus mais fervorosos defensores. É claro que não temos o nível de capacidade técnica de um estúdio como Laika, mas o que está em jogo aqui não é a arte, que não deixa exatamente a desejar. A dublagem é igualmente satisfatória, com as vozes de gente como o versátil Daniel Boaventura (dublando dois personagens importantes), a música Rita Lee e o lutador e dublê de ator Anderson Silva.

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Mas se os realizadores tinham à sua disposição essas que são as partes mais difíceis, por que não caprichar mais no roteiro? Sabe os insistentes filmes de Xuxa Meneghel e Renato Aragão, que ganhamos todos os anos (ou ganhávamos pelo menos), Minhocas é algo desse nível. Além disso, diversos outros elementos na produção possuem um gosto duvidoso, para não dizer mau gosto. O filme não possui um timing cômico, e é muitas vezes excessivamente violento para o seu público-alvo, além de repugnante.

O exemplo disso é que um dos capangas do vilão usa como arma secreções saídas do nariz, para prender e jogar nos protagonistas. Tal personagem também possui uma aparência horrenda que promete causar pesadelos nos menores. Em outro momento, a saliva de um dos zumbis é misturada no café de outro personagem, que o bebe. Esse tipo de humor sujo é geralmente encontrado em filmes adolescentes, que também envolvem sexo e muita escatologia. Minhocas é simplesmente um filme perdido no limbo cinematográfico, que sairá vitorioso se ao menos conseguir encontrar ou definir um público-alvo.

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