Quando pensamos em terror, inúmeras produções vêm imediatamente à nossa mente. Afinal, o apreço de cineastas e realizadores cinematográficos por narrativas desse tipo vem de muito tempo atrás, com ênfase em inúmeras investidas produzidas por George Mélies no nascimento da indústria audiovisual. O lendário diretor, antes mesmo do clássico Viagem à Lua, trabalhara em dois curtas-metragens de pouco mais de dois minutos e meio intitulado Le Manoir du Diable (1896), traduzido comumente como O Castelo Assombrado ou A Casa do Diabo. Não é surpresa que, no escopo histórico, a obra seja creditada como o primeiro do gênero em questão.

Desde então, enredos fantasmagóricos, satânicos e fantásticos – e todas as subtramas que delas conseguimos puxar -, ganharam um espaço especial entre o público, por mais que tenha passado por altos e baixos e tenha sido depreciado diversas vezes pelos especialistas internacionais. Desde as inflexões expressionistas do começo do século XX, como O Gabinete do Doutor Caligari, Nosferatu e Fausto, passando pelo apogeu slasher de A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13, e chegando aos dias atuais, com a franquia Invocação do Mal e o espectro psicológico de A Bruxa e Hereditário, o terror estende-se nas mais variadas ramificações, mostrando-se como uma linha metamórfica e que sempre terá algo a mais para contar.

É claro que tais filmes também vêm acompanhados de um panorama bastante verossímil. Com a chegada dos anos 2010, uma onda de críticas político-sociais começaria a acompanhar os longas e alavancaria uma determinação bem-vinda e chocante ao mainstream: o terror como denúncia do preconceito racial.



E, nesse suis-generis que vem reunindo forças ano após ano, faz-se necessário citar um nome de extrema importância – o de Jordan Peele. Após abandonar a atuação, Peele voltou-se para detrás das câmeras com o aclamado Corra!’, uma desconstrução de todos os clichês já vistos no cinema e um apelo nada panfletário sobre o racismo enfrentado, mesmo no século XXI, pela comunidade afro-descendente. A história é centrada em Chris Washington (interpretado com exímia crueza por Daniel Kaluuya), um jovem negro que namora Rose (Allison Williams), uma garota branca que quer levá-lo para conhecer a família. A princípio, tudo ocorre bem: os pais de Rose são bem receptivos e já o tratam como membro da família. Mais as coisas começam a tomar uma dimensão assustadora e Chris percebe que está no centro de uma seita psicótica que atrai pessoas negras para realizar transplantes de consciência de membros do “clã”, para que consigam características físicas específicas e um tipo de imortalidade distorcida.

Feito a partir de um baixíssimo orçamento de US$4,5 milhões, Corra!’ foi considerado um dos melhores filmes não apenas do ano, mas da década, além de ter causado um estrondo na bilheteria ao arrecadar mais de US$250 milhões. E qual o motivo? O aguardado protagonismo negro nas telonas, fora dos estereótipos de raça e de gênero que vinham acompanhando a indústria desde… Bem, sempre.

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Peele, facilmente um dos mais espetaculares e únicos realizadores da atualidade, foi sagaz o suficiente para manter a essência do terror psicológico à medida que explorava o racismo enraizado – e muitas vezes não percebido – na mentalidade branca. Não estamos falando de um supremacismo racial, mas sim de membros da classe média, como Rose e sua família, que podem, a princípio, parecer aliados da luta negra – quando, na verdade, transformam suas vidas em algo insuportável e subordinado ao que bem entendem. Mais do que isso, o filme expõe uma ideologia liberal que tropeça constantemente nas próprias brechas e que não ousa encarar os próprios erros. Até mesmo Jim Hudson (Stephen Root), que “está longe de ser racista”, como comentou Peele à Rolling Stone, “ainda tem papel sólido no sistema racista. E o modo como se manifesta é uma pessoa que acredita que o olho de um artista melhor, um artista negro, é o que o separa de ser um sucesso ou um fracasso”.



Não é surpresa, pelos fatos apresentados, que o filme tenha levado o Oscar de de Melhor Roteiro Original, tornando Peele o primeiro vencedor negro da história da premiação – isso sem comentar o fato de inúmeros membros do júri (conservadores antigos da Academia) terem escolhido não assistir à obra, o mesmo tipo de boicote que Ava Duvernay sofrera anos antes com Selma. Tudo fica ainda mais intrincado e chocante quando nos lembramos de que a produção foi indicada à categoria de Melhor Filme – Musical ou Comédia na 75ª cerimônia do Globo de Ouro, não deixando dúvidas acerca de sua importância temática e do fato de que a militância negra, muitas vezes, é rejeitada e diminuída por aqueles que estão no poder.

Vale ressaltar que, enquanto Peele entrou como instrutor principal para a nova geração de cinéfilos de que a igualdade, tanto defendida pelos liberalistas, ainda estava longe de ser algo realmente concreto, inúmeros nomes importantes do terror já haviam colocado suas próprias perspectivas no gênero. Em 1968, por exemplo, o lendário George A. Romero havia trazido às telonas um dos poucos heróis negros não estereotipados da época através de Ben (Duane Jones) em A Noite dos Mortos-Vivos – o único sobrevivente que é brutalmente assassinado por uma milícia branca nos momentos finais. Em 1992, tivemos o sofisticado exame de raça, história e amor com A Lenda de Candyman, de Bernard Rose, um horror elevado que parte tanto do princípio de que o antagonista é o espírito de um artista e filho de um escravo que foi morto no século XIX, quanto do fato de Helen (Virginia Madsen) ter receio de entrar para a comunidade predominantemente negra do Cabrini-Green, em Chicago, por ser caucasiana.

Colocando seu próprio twist nos precursores que fez questão de homenagear, Peele voltaria a fazer a mesma coisa com Nós, trazendo a xenofobia à tona e, novamente, colocando uma família negra como centro de uma angustiante narrativa sobre identidade. No ano passado, seria a vez de Misha Green mergulhar de cabeça na aclamada série Lovecraft Country, baseado no romance homônimo de Matt Ruff. O romance e a adaptação também partiram de um princípio similar, levando o enredo principal para um Estados Unidos dos anos 1950 bombardeado por leis segregacionistas, linchamento negro e as consequências da Era Jim Crow, que dava aval aos brancos a tratarem a comunidade afrodescendente como inferior e passível de abusos psicológicos e físicos. Mais do que isso, cada um dos episódios emergiu como uma releitura crítica dos escritos de H.P. Lovecraft, mestre do terror cosmológico, que era assumidamente racista e antissemita e exaltava a superioridade branca.

Em 2021, Little Marvin forneceria seu próprio resgate à década de 1950 com a antologia Them, aliando-se principalmente a Lena Waithe na supervisão do roteiro, para chocar o público com um retrato controverso e pungente dos sofrimentos que os negros sofriam quando confrontados por vizinhos brancos e por uma sociedade extremamente preconceituosa – beirando o sadismo e sendo criticada inúmeras vezes pela construção demasiadamente explícita das mensagens que procurava entregar.

O terror ainda tem muito a ser explorado e vem ganhando dimensões diversas à medida que a inclusão racial encontra espaço numa esfera outrora dominada por brancos. E, conforme as coisas vão mudando, mesmo que a passos curtos, percebemos que a inclusão de temas de preconceito a um gênero estagnado há algum tempo é, de fato, a essência mais pura e real do medo.



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