Obra sueca desvirtua algumas convenções de subgênero que dominou os cinemas

O ano de 2008 foi o início de uma tendência muito interessante no cinema de grande público. O lançamento de Crepúsculo (filme no mencionado ano e livro em 2006) iniciou uma procura maior por romances que envolvessem a dinâmica entre humanos, em fase adolescente, e vampiros. Não só isso, mas a obra provou que havia futuro para tramas adolescentes em cenários diversos (distópicos, sobrenaturais etc.) em um mercado até então dominado por Harry Potter.

A grande questão é que esse segmento cumpria uma regra clara de dosar certos temas como relações sexuais ou a violência inerente aos vampiros; porém, não foi a bula seguida por Tomas Alfredson. A ideia teve como base o romance sueco Låt den rätte komma in, escrito por John Ajvide Lindqvist e publicado em 2004.

A trama segue Oskar, um menino de doze anos que vive com a mãe e tem uma relação problemática com o pai. Extremamente solitário, ele passa os dias revezando entre o bullying que sofre dos colegas na escola e dos seus interesses em crimes reais, bem como outros temas de natureza mórbida.



Oskar encontra em Eli um conforto em meio a uma vida solitária.

Sua vida muda quando uma família se muda para o apartamento ao lado, na qual a filha possui a mesma idade de Oskar. De início ele percebe que a jovem, de nome Eli, tem hábitos noturnos e não é vista durante o dia; ela vive com um homem adulto, ao qual ela afirma não ser seu pai, e é extremamente vaga com relação a sua vida.

A história por si só já apresenta muitos elementos que naturalmente a isolam de enredos similares que estavam sendo contados nos Estados Unidos, porém, é o seu final que define essa diferença com o que era o usual. A grande revelação de Eli não é o que se espera e é o suficiente para redefinir, aos olhos do espectador, a forma de se ver a relação dos jovens.

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Outro elemento problemático que o enredo critica constantemente é o bullying nas escolas, sendo esse conceito bastante difícil para o diretor Tomas Alfredson trabalhar na adaptação para o cinema. A riqueza de detalhes com que o autor do livro constrói esses momentos impactou o cineasta de maneira profunda, isso ainda no período em que ele estava lendo o romance.



Tendo isso em mente ele aceitou o pedido vindo de Lindqvist para que ele pudesse assinar o roteiro. O que se teve foi uma poda abrangente de muitos arcos apresentados (alguns bastante pesados) ao longo do livro, sendo estes deixados de lado para que todo o foco se concentrasse na relação de Oskar e Eli. 

Logo após seu lançamento o filme recebeu ampla aclamação internacional, sendo saudado como uma das grandes histórias de vampiro no período contemporâneo e um interessante exemplar do cinema de terror. Foi somente por uma confusão nas datas de lançamento que o filme não pôde se tornar o candidato sueco na busca do prêmio da Academia para melhor filme estrangeiro. 

Ainda assim, tamanho foi o impacto da obra que em 2010 um remake norte-americano foi lançado, este sendo dirigido por Matt Reeves e tendo Chloë Moretz no papel de Ella. Deixe Ela Entrar  foi uma obra que veio em um momento oportuno e se destacou dentre tantas outras por não se adequar ao que era regra.

De maneira similar ao que Entrevista com o Vampiro fez em 1994, essa obra quebrou tabus importantes que permeiam um subgênero que, em tese, deveria ter liberdade de abordar temas que vão além das questões triviais da juventude. Nesse sentido Alfredson e Lindqvist entenderam muito bem o terreno ao qual estavam adentrando e ali fincaram sua bandeira.

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