Dia 04 de agosto, terça-feira, Rio de Janeiro. Acordei na minha cidade maravilhosa sabendo que era um dia onde grande parte do universo audiovisual brasileiro estaria reunida em um evento que busca relembrar a memória do nosso cinema e celebrar tantos projetos que chegaram ao público ao longo do último ano.

Nessa cerimônia, a mais longa entre os eventos audiovisuais do nosso país, o antigo Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, hoje conhecido como Prêmio Grande Otelo, realizado anualmente pela Academia Brasileira de Cinema, finalmente ganhou uma versão um pouco mais pocket em sua edição de 25 anos (cerca de 3 horas) realizada em um esplendoroso cartão postal do Rio de Janeiro: o Teatro Municipal.

Pra chegar, foi uma facilidade. Localizado no centro do Rio de janeiro, em uma região conhecida como Cinelândia por conta dos cinemas que existiam por ali – realidade que não existe mais – hoje, somente há o Odeon, sem estar efetivamente no circuito exibidor, servindo de palco apenas para eventos especiais, como o Festival do Rio -, esse ponto turístico e palco de grandes apresentações das mais diversas artes foi uma escolha certeira.

No tapete vermelho montado na parte lateral do teatro, artistas com pequenas, médias ou grandes contribuições para o nosso cinema desfilavam sua elegância, e, alguns, uma enorme simpatia. Jornalistas, espremidos nos cantinhos reservados, buscavam uma fala, um vídeo, algo para compor um mosaico da noite estrelada.

Nesse momento, me afastei e observei. É impressionante como os curtas-metragens e seus realizadores e realizadoras passam despercebidos por grande parte da imprensa. Uma pena. As categorias desse formato fantástico do audiovisual eram as mais fortes, com obras maravilhosas que circularam os festivais no Brasil e pelo mundo.

Após esse intenso e corrido tapete vermelho, em uma noite de um calorzinho carioca que transformou lenços e mais lenços em objetos de desejo de alguns artistas que passaram por ali, além dos copinhos da água que circulavam, gentilmente oferecidos a nós, de frente com a notícia, entramos na deslumbrante sala principal do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, um lugar mágico, fascinante e confortável, para o início da cerimônia.

Arranjei um cantinho privilegiado, algo como um camarote lateral, onde permaneci pelas horas que se seguiram, observando atentamente tudo o que acontecia. Essa visão geral me fez ficar de frente para as reações aos premiados. Alguns pareciam ter torcidas calorosas, que se manifestavam a cada prêmio como se fosse um gol do Brasil na copa do mundo de futebol, reforçando quem argumenta que há rivalidades no nosso meio audiovisual.

Apresentado por Marieta Severo e Silvia Buarque e com mais de 30 categorias para serem premiadas, o Prêmio Grande Otelo, entre discursos e homenagens, entregou seu palco a profissionais do audiovisual, que se revezaram entre discursos maravilhosos e outros de longos agradecimentos protocolares.

Teve até erro na hora de agradecer. Uma das premiadas (duplamente indicada), no início do seu discurso, agradeceu por um filme, mas ganhou pelo outro. Faz parte. O nervosismo entrega situações peculiares e, em nada, apagou o belíssimo trabalho entregue pela profissional nas duas obras.

Ainda sobre os discursos, Pedro de Alencar, diretor vencedor da categoria de Melhor Curta-Metragem Documentário com Sebastiana, protagonizou o mais belo dos discursos da noite, que faço questão de colocar abaixo, na íntegra, pra vocês:

Em relação aos premiados, houve algumas surpresas. Assim como no Oscar, Wagner Moura não levou o prêmio de melhor ator por O Agente Secreto. O vencedor foi Jesuíta Barbosa por Homem com H, uma das cinebiografias de maior sucesso dos últimos anos. Na categoria de melhor longa-metragem ficção, a mais aguardada da noite, a divisão do prêmio entre Manas e O Agente Secreto deu o que falar logo após a cerimônia, assunto que em breve falaremos mais profundamente sobre.

Após a longa cerimônia, entre empadinhas e pasteizinhos deliciosos, uma confraternização tomou conta do Teatro Municipal madrugada adentro. Foi um momento importante para aquele network, fundamental para o início de futuros projetos. Sempre com o faro na notícia próximo de mim, de longe observei e ouvi conversas que, em breve, devem ganhar as telonas.

Ah…o cinema brasileiro. Amado por tantos, incompreendido por muitos, cheio de bolhas que insistem em estar distantes, alguns muros em vez de pontes, mas uma coisa é certa: seguiremos firmes, como uma grande família que briga e faz as pazes, com muito mais histórias pra contar. Viva o cinema brasileiro!

Abaixo, a lista de todos os vencedores dessa noite marcante para o audiovisual brasileiro:
MELHOR LONGA-METRAGEM FICÇÃO
MANAS, de Marianna Brennand. Produção: Carolina Benevides e Marianna Brennand por Inquietude; Beto Gauss e Francesco Civita por Pródigo
O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho. Produção: Emilie Lesclaux por Cinemascópio Produções Cinematográficas
MELHOR DIREÇÃO
MARIANNA BRENNAND por Manas
MELHOR PRIMEIRA DIREÇÃO DE LONGA-METRAGEM
RAFAELA CAMELO por A Natureza das Coisas Invisíveis
MELHOR ATOR DE LONGA-METRAGEM
JESUÍTA BARBOSA como Ney Matogrosso por Homem com H
MELHOR ATRIZ DE LONGA-METRAGEM
DENISE WEINBERG como Teresa por O Último Azul
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
DIRA PAES como Aretha por Manas
MELHOR ATOR COADJUVANTE
RODRIGO SANTORO como Cadu por O Último Azul
MELHOR LONGA-METRAGEM COMÉDIA
VELHOS BANDIDOS, de Claudio Torres. Produção: Claudio Torres, Renata Brandão e Juliana Capelini por Conspiração
MELHOR LONGA-METRAGEM IBERO-AMERICANO
BELÉN (Argentina) – Direção: Dolores Fonzi. Indicação: Academia de las Artes y Ciencias Cinematográficas de la Argentina
O RISO E A FACA (Portugal) – Direção: Pedro Pinho. Indicação: Academia Portuguesa de Cinema
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
FELIPE SHOLL, MARCELO GRABOWSKY, MARIANNA BRENNAND, CAROLINA BENEVIDES, ANTONIA PELLEGRINO e CAMILA AGUSTINI por Manas
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
DANIEL REZENDE por O Filho de Mil Homens – adaptado da obra “O Filho de Mil Homens”, de Valter Hugo Mãe
MELHOR LONGA-METRAGEM INFANTIL
O DIÁRIO DE PILAR NA AMAZÔNIA, de Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put. Produção: Juliana Capelini e Renata Brandão por Conspiração
MELHOR ATOR SÉRIE DE FICÇÃO PARA TV ABERTA OU STREAMING
JOHNNY MASSARO como Fernando por Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente
MELHOR ATRIZ SÉRIE DE FICÇÃO PARA TV ABERTA OU STREAMING
ALICE CARVALHO como Dinorah por Cangaço Novo
MELHOR SÉRIE DE FICÇÃO PARA TV ABERTA OU STREAMING
MÁSCARAS DE OXIGÊNIO NÃO CAIRÃO AUTOMATICAMENTE – 1ª TEMPORADA – Produção: Morena Filmes – Thiago Pimentel, Mariza Leão e Tiago Rezende
MELHOR CURTA-METRAGEM FICÇÃO
AMARELA, direção: André Hayato Saito
MELHOR LONGA-METRAGEM
ANIMAÇÃO TAINÁ E OS GUARDIÕES DA AMAZÔNIA – EM BUSCA DA FLECHA AZUL, de Alê Camargo e Jordan Nugem. Produção: Virginia Limberger por Sincrocine Produções
MELHOR SÉRIE DE ANIMAÇÃO PARA TV ABERTA OU STREAMING
OSMAR, A PRIMEIRA FATIA DO PÃO DE FORMA – 3ª TEMPORADA – Produção: 44 Toons – Ale McHaddo, Guilherme Machado de Sá e Rafael Reinoso
MELHOR CURTA-METRAGEM ANIMAÇÃO
A TRAGÉDIA DO LOBO GUARÁ, direção: Kimberly Palermo
MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
APOCALIPSE NOS TRÓPICOS, de Petra Costa. Produção: Petra Costa por Busca Vida Filmes MELHOR MONTAGEM DOCUMENTÁRIO DAVID BARKER, TINA BAZ, NELS BANGERTER, JORDANA BERG, VICTOR MIACIRO e EDUARDO GRIPA por Apocalipse nos Trópicos
MELHOR SÉRIE DE DOCUMENTÁRIO PARA TV ABERTA OU STREAMING
CAÇADOR DE MARAJÁS – 1ª TEMPORADA – Produção: Boutique Filmes – Gustavo Mello e Waking Up Films – Marcelo Campanér – Charly Braun
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
SEBASTIANA, direção: Pedro de Alencar
MELHOR FILME PELO JÚRI POPULAR
HOMEM COM H, de Esmir Filho. Produção: Marcio Fraccaroli, Andre Fraccaroli e Veronica Stumpf por Paris Entretenimento
MELHOR MONTAGEM DE FICÇÃO
ISABELA MONTEIRO DE CASTRO por Manas
MELHOR DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA
EVGENIA ALEXANDROVA por O Agente Secreto
MELHOR EFEITO VISUAL
ALEXANDRE BOIRON, LUUK MEIJER e DAVID VAN HEESWIJK por O Agente Secreto
MELHOR SOM
ANA LUIZA PENNA, MARTÍN GRIGNASCHI e ARMANDO TORRES JR, ABC, por Homem com H
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
THALES JUNQUEIRA por O Agente Secreto
MELHOR MAQUIAGEM
MARTÍN MACÍAS TRUJILLO por Homem com H
MELHOR FIGURINO
GABRIELLA MARRA por Homem com H
MELHOR TRILHA SONORA
GUILHERME AMABIS, MARIANA AMABIS e RICA AMABIS por Homem com H


